O Natal do Senhor entre cultura e fé

Foto. Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

As festas natalícias são, porventura, as mais sentidas e intensamente celebradas nas sociedades de cultura cristã: as cidades iluminam-se de festa e fantasia, as pessoas prendam-se e trocam felicitações, as famílias reúnem-se à volta da mesa onde não faltam especialidades típicas da arte culinária… Uma grande exuberância de símbolos e a sua universalização testemunha o enraizamento cultural destas festividades: os presépios, a estrela, a árvore luminosa, adornada de pomos e resplendores… Mas, principalmente, a imagem de um Menino recém-nascido. Grandes valores humanos estão associados a este entranhável universo simbólico: paz, fraternidade, bondade, gratuidade nas relações humanas, a família e as crianças…

Mas o Natal e a sua celebração também se degradam: consumismo desenfreado, frenesim louco e alienante das festas de passagem de ano, ausência de verdadeira fraternidade hipocritamente dissimulada, a transformação das “férias de Natal” que congregam em “férias de Inverno” que dispersam… São alarmantes os sintomas da perda da identidade cristã de tais festejos e a redução “humanista” que substitui o Menino de Belém pela exaltação de valores meramente humanos desligados da sua matriz cristã.

Os cristãos conscientes não deixarão de exprimir e alimentar a sua fé nas celebrações natalícias. A vivificar os seus símbolos e a inspirar costumes e tradições, não pode faltar a Palavra de Deus e a Liturgia sacramental da Igreja. Deixamos aqui algumas sugestões:

– O Natal que celebramos é o de Jesus Cristo: não se trata de uma anónima e vaga festa de bons sentimentos (que sempre, aliás, deveríamos ter).

– O Natal celebra-se em Igreja. A melhor forma de o fazer continua a ser pela participação na Eucaristia: seja na “Missa do Galo” (não necessariamente à meia-noite), seja noutra.

– A melhor forma de participar na Eucaristia é a Comunhão: o altar da Igreja é a “manjedoura onde reconhecemos o Senhor que nos foi dado e onde Ele se nos oferece como alimento de vida. Durante o Advento devemo-nos preparar, celebrando a Reconciliação, se for o caso, para que esta comunhão seja mais digna e frutuosa.

– Nas casas o melhor símbolo do Natal continua a ser o Presépio, com o Menino: desde o século IV que os cristãos fazem da cena de Belém uma profissão de fé no mistério da Incarnação. À volta do presépio é bom que a família se reúna para algum momento de oração.

– Embora de uso mais recente, também a árvore de Natal (isolada ou associada ao presépio) é símbolo natalício: recorda-nos a árvore do Paraíso que o Novo Adão nos reabriu, a árvore de Jessé cujo melhor fruto é o próprio Cristo, a árvore gloriosa de Cruz em que o Senhor Jesus nos redimiu… A sua luz evoca Aquele que é a “Luz do Mundo”… É símbolo de vida imortal (folha perene) mas também o pode ser de vida que se renova (folha caduca), unindo a terra (raízes) ao céu (copa com a estrela…).

– Não se troque a Ceia de consoada ou outra refeição que reúna a família por nenhuma diversão ou proposta turística, por sedutoras que estas se apresentem. Procure fazer-se destes encontros, ainda que difíceis e tumultuosos, um lugar privilegiado da memória familiar ao qual não falte a referência da fé.

– As “prendas” do Natal, depositadas junto ao presépio ou debaixo da árvore (e não deveria faltar algum presente para os pobres, que também pertencem à família) têm sentido se forem expressão de alegria e gratuidade. Deverão lembrar a crianças e adultos que todos os dons verdadeiros têm uma origem divina (que pena termos substituído o Menino Jesus pelo Pai Natal no “papel” de distribuir as prendas das crianças!) e, sobretudo, que a prenda principal que recebemos no Natal é o próprio Cristo, o “Menino que nos foi dado”. É Ele o Presente que importa abraçar nos inúmeros abraços e presentes. É para Ele e por Ele que peregrinamos, como os Magos, “juntos por um caminho novo”, iluminados pelo fulgor da sua luz.