Os cristãos e a causa do clima

Por Jorge Teixeira da Cunha

A preocupação pelas alterações climáticas ganhou uma grande importância nos últimos anos. Ao assunto se têm dedicado as sucessivas cimeiras das Nações Unidas, a última das quais teve lugar na última semana. Mais significativo do que essas reuniões que costumam ter um resultado pouco marcante é a evidência de que o assunto desceu à rua das nossas cidades e mobiliza a gente nova mais do que qualquer outra causa. Nos anos mais recentes, quem anda pelas universidades, sabe que o tema das alterações climáticas interessa mais os estudantes do que o futuro do trabalho e mais do que a própria justiça social. Esse dado dá que pensar. O que podemos dizer sobre isto como cristãos que pensam a vida desde a mensagem de Jesus?

Sabemos que a questão ecológica já leva alguns anos a ser tratada nas encíclicas papais, honra seja a esses textos que nos falam do assunto há mais de seis décadas. Por sua vez, os movimentos de acção católica, enquanto os havia e eram acarinhados, já se ocupavam disso na sua militância. Porém, a urgência tornou-se maior nos últimos tempos, agora que os dados sobre um real aumento da temperatura global tendem a ter mais evidência científica do que tinham antes. Por isso, nos parece que chegou o tempo de colocar este assunto na ordem do dia da nossa pastoral. A encíclica “Laudato Sì”, do Papa Francisco, publicada em 2015, é um marco neste alinhamento da Igreja para assumir a causa do clima como um movimento de realização de um valor moral, para lá da moda e mesmo da ideologia de que anda, apesar de tudo, rodeado.

A reflexão teológica tem por missão aumentar a lucidez no tratamento deste assunto. Desde logo, lembrando-nos que a memória crente leva consigo este assunto desde tempos remotos. Com efeito, a Escritura assinala uma interligação entre as opões humanas responsáveis e os seus efeitos bons e maus nos elementos climáticos. Seria necessário esclarecer o sentido dos textos que mencionam uma série de maus efeitos que sucedem à irresponsabilidade da humanidade das origens, entre os quais se menciona o desencadear de um dilúvio. O que é importante dizer é que a acção divina tem em vista a realização de um contexto cósmico com a humanidade no centro e no termo da evolução. Por isso, não se pode, de modo nenhum, aceitar a ideia de que a humanidade é nociva e supérflua ao funcionamento do cosmos. Os elementos físico-químicos, as reservas energéticas acumuladas, são a condição de possibilidade da vida, e podem ser usadas pelos seres humanos, que são os viventes mais perfeitos. A resolução da questão climática dos nossos dias apenas pode acontecer dentro de um contexto de responsabilidade dos seres humanos, tendo em conta também a escuta do divino que a humanidade sempre sentiu e que, para os cristãos, encontra em Jesus Cristo o seu ponto de culminação insuperável. Esta visão livra-nos de todos os contextos deterministas e anti-humanistas, naturalistas ou idealistas, que são identificáveis nas discussões sobre o clima.

Para obviar o agravamento da questão climática é, pois, necessário, antes de mais, um crescimento espiritual e moral que a fé cristã muito pode incentivar. Melhorar a capacidade de sentir e de vibrar com rumor do cosmos, cultivar uma moderação no consumo de energia e de alimento, desenvolver a solidariedade entre todos os humanos da terra e destes com os outros viventes, é o ponto de partida para obviar a questão climática. A fé é a primeira forma de habitar poeticamente e responsavelmente o mundo. Depois disso, é necessário pôr no terreno opções técnicas que poupem e optimizem sempre mais os recursos. Algum dinheiro é também necessário, mas com grande atenção das instituições para não permitir a voragem dos grupos de pressão que enriquecem e nada fazem pelo clima.

A evolução das instituições morais há muito que está a germinar, principalmente, uma terceira geração de Direitos Humanos, que fundamente e garanta o direito de todos os viventes às condições que possibilitam a vida, entre as quais se encontra obviamente o clima, a água, o ar, a flora e a fauna. A autenticidade do grito das novas gerações que se manifestam contra a hipocrisia com que tratamos a terra é bem um sinal da urgência da evolução do sentimento moral e do crescimento espiritual de que precisam as gerações de humanos de hoje.