O Cinema visto pela Teologia (44): “Três Mil Anos de Desejo”

Uma leitura do filme “Três Mil Anos de Desejo*

Por Alexandre Freire Duarte

Mais um filme a que tento dar uma possível leitura teológica; mais um filme que já não está nos cinemas. É o problema de – tendo reiniciado esta rúbrica deslocado no tempo e, além do mais, também ter ido buscar obras surgidas antes de tal recomeço – nunca mais ter recuperado o fio da sincronia temporal entre o presente cinematográfico e o presente destes meus textos. Lamento esta situação.

Posto isto, é de referir que “Três Mil Anos de Desejo” é um provocador e quase alucinogénio drama épico acerca da arte do “contar histórias”, que desponta de uma mundividência humanista, epicurista e secular com tons anticristãos. Ou melhor: acerca de um tocante amor, contado em tons às vezes niilistas e sempre pós-modernos, ao “contar histórias”, que perde bastante com três (cruciais, mas dispersivas) analepses e um excesso de violência e nudez (embora estas surjam contextualizadas num decadente referencial islâmico).

A direção é magnífica e mostra a liberdade, a audácia e o desejo de aguilhoar do grande George Miller. Todavia, o ritmo pesado e lento; a música espaçada e desprovida de impacto; os diálogos interessantes, mas entrecortados por expressões ditas rapidamente como “palavras de ordem” pensadas para nos serem impostas, fazem com que nem os interessantes (e ilusoriamente descontraídos) desempenhos dos sempre eficazes Swinton e Elba consigam erguer esta obra (cheia de emoções a desabarem) aos patamares para que certamente fora pensada.

Teologicamente falando, e como disse, não há dúvida que estamos ante uma história de amor que se resume a uma narrativa visual acerca de como o amor (nas suas diversas expressões) e as personagens (vivendo usualmente no mundo dos desejos) se relacionam com esse mesmo amor. E isto, levando-nos a recordar que nós somos feitos de histórias; somos feitos para sermos recetáculos de, e livremente edificados por histórias: as nossas e as dos demais. Ou seja: aquele resumo pode ser ainda mais prensado e dizer-se que o centro deste filme é o amor entre nós e as histórias. Não foi mesmo assim que Jesus nos ensinou? Através de histórias?

Além disto, dois temas, assaz relevantes para a vida cristã, merecem umas reflexões. O primeiro, é o perigo do slogan “segue o teu coração”, tão usual nos nossos dias que nem nos damos conta de ser uma cilada do egoísmo que nos separa da realidade objetiva (que até se passou a dizer que não existe face ao “aquilo que eu sinto”). Mas não há nada mais volúvel do que o coração fechado em si, e as decisões assim tomadas não deixam de ter efeitos perversos e repelentes do amor.

Depois temos a constatação de que uma vida repleta de satisfação fruto da reputação, da notoriedade e do “fazer o que se ama”, é uma fantasia e um mito no pior sentido deste termo, pois o verdadeiro amor, que nada tem de vaporoso, não tem lugar aí. É preciso aferir os motivos dos nossos desejos e deixar vir à tona apenas os que são inspirados por Jesus. Os únicos dadores de sentido, dignidade e valor a um mundo crescentemente frágil, pois repleto de materialismo e cientismo.

(* Australia, EUA; 2022; dirigido por George Miller, com Tilda Swinton, Idris Elba e Ece Yüksel)