O Humanismo Cristão de Adriano Moreira

Por Jorge Teixeira da Cunha

Não há muitos homens na vida política com a qualidade de Adriano Moreira. Há ainda menos de que se possa dizer que cultivaram o humanismo cristão. Por isso, há diversos motivos que nos levam a chamar a atenção para esta personagem que nos deixou nos últimos dias. Adriano Moreira viveu um século, foi titular do Estado Novo e do regime democrático saído de Abril de 1974, conheceu o exílio e o regresso, foi político e académico. Um percurso controverso, sem dúvida, mas vivido com sentido crítico que lhe mereceu o respeito de muitos, mesmo dos que não concordaram com as suas ideias. Em que sentido podemos classificar o seu percurso existencial como humanismo cristão?

Em primeiro lugar pelo seu enraizamento telúrico. Adriano Moreira nunca renegou as suas origens transmontanas. Essa fatalidade acompanhou-o e deu uma feição naturalista ao seu modo de estar no mundo. Mesmo na sua profunda ambiguidade, a proximidade com a natureza, com os ritmos da vida no seu nascer e morrer, de semear e de esperar, de olhar o infinito e de admirar as montanhas e as planuras, a natureza com a sua energia inesgotável e irreprimível, é a primeira e mais elementar forma de racionalidade. Adriano Moreira, como Miguel Torga, e outros homens nascidos para lá do Marão são profundamente tocados por este naturalismo e telurismo que dão um teor ao seu modo de entender o mundo. A natureza é conservadora, aconselha a contradizer os idealismos éticos de hoje. Por isso, o naturalismo não alinha nos excessos autonomistas da cultura citadina que faz a liberdade voltar-se contra a vida, seja pelo aborto, pela eutanásia, pela passividade frente à manipulação, e por outras formas controversas de ordenar a nossa vida associada.

Em segundo lugar, podemos dizer que o humanismo cristão de Adriano Moreira estava assente numa confiança moderada na razão humana. É muito conhecido o seu lema de substituir sempre a palavra da força pela força da palavra. Várias vezes o ouvimos pensar diversos da cultura de hoje por esse caminho, sobretudo a questão da paz e da convivência internacional. De facto, um humanismo moderado e realista não perde a esperança de fazer triunfar a paz pela força da palavra e não pela força das armas, de fazer triunfar a razão pela força dos argumentos racionais e não pelos actos de voluntarismo revolucionário. Foi também por este caminho que elaborou a sua teoria da convivência dos povos de língua portuguesa, o luso-tropicalismo, hoje um pouco anacrónico, mas que talvez alguma geração do futuro possa retomar. No espaço cultural português não encontramos muitos personagens que, na segunda metade do séc. XX, tenham pensado e militado por este racionalismo crítico, elevado a plataforma da convivência dos portugueses e como nosso contributo para uma convivência mundial, especialmente no âmbito da cultura lusófona.

Em terceiro lugar, identificamos o elemento cristão explícito do pensamento de Adriano Moreira. Este ponto é interessante, uma vez que sempre o vimos fazer um caminho muito seu, não enfeudado a nenhum guia espiritual nem clerical, na forma débil desta expressão. Ele viveu como um católico leigo, com autonomia de pensamento e de acção, acompanhou criticamente a evolução do catolicismo, soube reconhecer os contributos da Igreja para a questão colonial, como foi o caso de D. Sebastião Soares de Resende. A matriz democrata-cristã do seu pensamento é uma dimensão muito assumida, para lá mesmo do partido político que integrou e que liderou. Neste aspecto, podemos dizer que é mesmo dos últimos militantes que viveram com empenho e inteligência a procura por identificar as consequências da fé cristã para a vida política.

A vida de Adriano Moreira não foi isenta de controvérsias. Mas quem pode viver a missão política sem conhecer a controvérsia da decisão contingente e situada? A história se encarregará de fazer um juízo mais justo. Nesta hora, parece justo reconhecer neste homem alguém que na política, na academia, na opinião, viveu sem disfarce o seu catolicismo.