Mensagem (182): Laços

O porte era sereno. Mas, por dentro, adivinhava-se um dorido vulcão de lágrimas e cinzas. Em palavras breves, o até então desconhecido contou-me a situação clínica do seu mais novo, com pouco mais de seis anos: portador de uma das mais agressivas leucemias. E pediu orações: “Por favor, reze por ele”.

Passado cerca de ano e meio, sabendo que me encontraria em certo lugar, a família foi-me esperar, em pose fotográfica: o casal atrás e os dois filhos à frente. Todos sorridentes. Que vinham agradecer. Porque o “menino”, agora com quase oito anos, se salvou. Graças a Deus. Devido às orações.

Confesso que me emocionei. E eles notaram bem. A ponto de o irmão mais velho, com onze anos feitos, fixar o olhar no chão, como quem não quer ver cenas de fraqueza. Mas disfarçamos, rimos, falamos sobre os percursos escolares e celebramos com uma foto que um transeunte nos fez.

Esta notícia não me saiu da memória ao longo do dia. Definiu-me mais o que é um pai do que toda uma enciclopédia sobre o tema. E trouxe-me à recordação uns versos de Torga construídos à base desta ideia: um pai aproxima-se do filho acabado de nascer, toca-o com o indicador e aquele dez reis de gente agarra-se-lhe de tal forma ao dedo que nunca mais os dois se desprendem. E não sei quem se apega com mais força: se o filho ao pai ou se este àquele.

É o mistério da paternidade, algo que a inteligência raciocinante não explica, mas o coração sente com uma intensidade só comparável à beleza que exprime. É a certeza de que a vida prolonga a vida. Mas vida tornada mais pura na pureza do filho e mais promissora como o botão de uma flor a abrir. Por isso, a vida do pai «transita»: esquece-se de si, dos trabalhos e canseiras, para fazer sua a alegria e a felicidade da traquinice do seu rebento.

Mas aquele era um dia talhado para emoções. Passado pouco tempo, vi o que nunca tinha presenciado «ao vivo»: um homem e uma mulher, na casa dos trinta, empurrando, cada um deles, um carrinho onde não iam bebés, mas… cães. E como se fosse pouco, à noitinha, mais outra cena: dois atletas em bicicleta, cada uma delas com atrelado. Porque me chamou a atenção o perigo que corriam as crianças, fixei-me melhor: afinal, não eram miúdos, mas… outros dois cães.

“Adorarão animais”, dizia o Cura d’Ars. Para desgraça de quem troca a humanidade pela animalidade.

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