Sinodalidade, reforma e melhoramento da Igreja

Por Jorge Teixeira da Cunha

A Conferência Episcopal Portuguesa publicou no início do mês de Agosto um “Relatório de Portugal”. Aí está vertido o seu contributo para o Sínodo 2021-2023, promovido pelo Papa Francisco. É um texto corajoso, pois apresenta, quase sem edição, o resultado das respostas de pessoas e grupos que colaboraram no amplo processo de auscultação. Tem uma parte mais descritiva e uma parte mais propositiva dos caminhos de renovação. A parte descritiva foi a que teve mais impacto nas notícias a que o relatório suscitou. Uma Igreja clerical, pouco dada à escuta dos apelos de novidade, conivente com os comportamentos menos próprios de alguns clérigos, foi o que nos ficou no ouvido, se apenas tivermos os meios de comunicação generalistas. Na parte das propostas e mudança, o relatório assinala a estima positiva que a sociedade tem sobre a Igreja e as suas actividades, sobretudo das iniciativas de socorro social, o desejo de muitos de que a Igreja seja mais inclusiva das pessoas que vivem situações morais de irregularidade com as normas, que seja mais familiar e menos hierárquica nas tomadas de decisão, que os presbíteros e bispos sejam menos rígidos e mais próximos do povo. A figura do Papa Francisco é posta em evidência como o seguro da Igreja, nesta fase de mudança e de turbulência.

Este relatório teve algumas curiosas réplicas por parte de membros da Igreja que nos dão algo que pensar. De um lado podemos enumerar os pronunciamentos que lamentam a lentidão da Igreja em se modificar, em se democratizar, em se modernizar. De outro lado, encontramos os que procedem em sentido contrário, tendendo para ver as coisas pelo aspecto de eternidade que há em certas palavras e em certas instituições. É este confronto que nos leva a propor uma pequena reflexão sobre a reforma e o melhoramento da Igreja. A ânsia de reforma da Igreja tem, pelo menos, cinco séculos e tantas coisas se têm passado neste processo sem fim. Nem todas as reformas levam ao melhoramento da Igreja. A reflexão sobre reforma e melhoramento tem de nos ocupar quando procuramos uma Igreja mais adjacente ao mistério de Cristo. Pois, nem a conservação nem a renovação são imediatamente formas de melhoramento da Igreja. Como proceder então?

Para inovar, a Igreja tem de voltar sempre ao seu lugar de origem. Uns dirão que a origem de tudo é a teofania do Cenáculo, outros que é o Monte Calvário. Como quer que seja, é sempre a pessoa de Jesus. Por isso, a nosso ver, a Igreja de hoje tem de superar as suas representações teóricas tradicionais sobre a sua ligação a Cristo, em favor de um progresso na experiência crente. A experiência, como forma de acção e de conhecimento, está hoje muito bem elaborada e já não suscita os medos do passado. Por esta via, poderá desempenhar melhor o seu papel de dar a viver a grande vida de Jesus e de encontrar as palavras e instituições para isso. Como ficou patente nas reacções ao relatório sinodal, na nossa Igreja abundam doutores e figuras magistrais, sejam clérigos sejam leigos. Mas vê-se uma grande falta de místicos e orantes, que são dos seres humanos que sintonizam com o mistério de Jesus e transbordam de vida para si e para os outros. Estes e estas costumam ser pouco palavrosos, mas quando falam, alguma coisa de novo acontece. É este progresso invisível que nos falta para melhorar a Igreja (clérigos e leigos) quanto à sua relevância visível, à sua capacidade de inclusão do diferente, à sua lucidez para iluminar e pacificar tantas questões de hoje.