As rendas (e bordados) da Avó

Foto: Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

No passado dia 9 de junho, o Santo Padre fez um discurso a cerca de trezentos padres sicilianos, juntamente com os bispos dessa região insular italiana, por ocasião de uma peregrinação dos mesmos a Roma no 30º aniversário do Dia Sacerdotal Regional Mariano.

No discurso, que não foi longo, Francisco abordou importantes questões da vida e da pastoral dessa região tão rica e tão sofrida da Itália, elogiando as opções corajosas que a Igreja siciliana, com os seus pastores, tem vindo a fazer neste tempo de mudança epocal. E não deixou de reconhecer que na Sicília ainda se olha para os sacerdotes como guias espirituais e morais e que a figura sacerdotal no meio do povo continua a ser importante: «Não faltaram no passado e também não faltam hoje figuras de sacerdotes e fiéis que abraçam plenamente as sortes do povo siciliano».

Naturalmente, a parte principal do discurso focou-se em questões sociais e culturais de premente atualidade. Mas, no final, o Papa abordou também questões relacionadas com a pastoral litúrgica. Traduzimos para os leitores de VP:

«Antes de terminar, gostaria de falar de algo que me preocupa, que me preocupa bastante. Pergunto-me: a reforma que o Concílio pôs em marcha, como vai entre vós? A piedade popular é uma grande riqueza e devemos preservá-la, acompanhá-la para que não se perca. Também educá-la. Sobre isto, lede o n.º 48 da Evangelii nuntiandi. Tem plena atualidade o que São Paulo VI nos dizia sobre a piedade popular: libertá-la de qualquer gesto supersticioso e assumir a substância que está dentro dela. Mas a Liturgia, como vai? E aí eu não sei, porque não vou à Missa na Sicília e não sei como pregam os padres sicilianos, se pregam ou não como foi sugerido na Evangelii gaudium ou se pregam de tal modo que as pessoas saem para fumar um cigarro e depois voltam… Aquelas pregações em que se fala de tudo e de nada. Tende em conta que, após oito minutos a atenção cai e as pessoas querem substância. Um pensamento, um sentimento e uma imagem e isso levam-no para toda a semana. Mas como celebram? Eu não vou lá à Missa, mas vi fotografias. Falo claro. Mas caríssimos: ainda rendas, barretes…, mas onde estamos? Sessenta anos depois do Concílio! Um pouco de atualização também na arte litúrgica, na “moda” litúrgica! Sim, por vezes vestir alguma renda da avó, vá lá! Mas às vezes. É para prestar homenagem à avó, não é? Compreendestes tudo, não? Compreendestes. É belo homenagear a avó, mas é melhor celebrar a mãe, a santa mãe Igreja, e como a mãe Igreja quer ser celebrada. E que a insularidade não impeça a verdadeira reforma litúrgica que o Concílio pôs em movimento. E não ficar quietistas».

Destacamos as 3 preocupações «litúrgicas» principais de Francisco:

1) A valorização da piedade popular que tem sido negligenciada, contra as indicações do Concílio, sob pretexto de serem práticas menos «litúrgicas». Apoiando-se em São Paulo VI, o Papa apela à preservação dos valores ínsitos à piedade (religiosidade) popular, suposto também o esforço paciente e lúcido de purificar as suas práticas de qualquer marca ou resquício de superstição.

2) O cuidado a ter com a pregação no âmbito da liturgia, convidando os padres a prepararem as homilias segundo as indicações dadas na Evangelii Gaudium, recomendando particularmente a brevidade e incisividade da pregação homilética.

3) A preocupação para com aquela parte do clero dito «tradicionalista» – ignoramos que peso tenham na Sicília, mas provavelmente Francisco estaria a pensar de forma menos regional e mais global – que se prende às relíquias do passado fazendo delas a bandeira de uma recusa bem mais daninha da celebração conforme a Santa Mãe Igreja propõe e que a reforma litúrgica do Vaticano II preconiza. Não se pense que o problema esteja nas rendas e bordados, ou nos tricórnios eclesiásticos com pompom mais ou menos farfalhudo. Como também não está propriamente no uso do latim. O problema é quando estas opções estéticas ou culturais se tornam bandeira de uma recusa objetiva do que o Espírito disse e diz à Igreja no último Concílio e no magistério pontifício, dando origem a quistos no corpo eclesial.