O Cinema visto pela Teologia (25): o filme “Cyrano”

Uma leitura do filme Cyrano” *

Por Alexandre Freire Duarte

É verdade: eu canto pessimamente, mas querer fazer deste filme um musical, com atores dotados de capacidades vocais piores do que as minhas, animou-me. Todavia, é uma pena que este “Cyrano”, desconstruído com maestria, mas reconstruído com menor habilidade (onde está o nariz da personagem principal? Reduzido apenas à estatura do ator que a desempenha?), nos tenha que fazer padecer tanto com as sofríveis interpretações de músicas que, afinal e por algumas das suas letras, teriam muito a dizer.

O diálogo intoxicante e a interação vibrante entre as personagens é interessante; o cenário e o figurino, apesar de visualmente barrocos, são simultaneamente provocadores, cativantes e indicadores de atitudes modernas (algo ajudado, também, pela dança das câmaras, as coreografias pops e uma montagem enérgica e impressionista). Sim: “tudo isto existe… tudo isto é fado”, numa criação que dá um tom adoçado e pesaroso, tocante e possante a uma história que transpira tudo isto.

Numa aproximação teológica a esta obra, a questão que vem imediatamente ao de cima é: pode o amor existir, ainda que no meio de uma relação extática e (literariamente) erótica, quando, na sua base, está uma soma de mentiras e meias-mentiras? Mesmo quando se vislumbra que, ultimamente, é o próprio amor e o medo a se ser ridicularizado que motiva tais enganos, não há dúvida alguma que a solidão é o único desfecho que daí poderá advir. Uma solidão que, então, é fruto do receio de se dizer a, e viver na verdade, levando a uma autoflagelação emocional que projeta em Deus a responsabilidade por algo que, afinal, é o mero fruto de uma autoalienação.

Sim; o fim da trama parece dar uma saída teológica a este drama, mas por mais belas que possam ser as palavras que a expressem (também com um acenar para as virtudes teologais), tais vocábulos surgem num contexto envolvente frio (não obstante a catarata de luz nele presente) e repleto de triste resignação. Talvez se possa crer que esse seria, afinal, o único fim possível para um tão torturado e cegamente apaixonado Cyrano. Mas se o for, é-o apenas porque este, inclusive ante a morte, não se desapega de si; não larga o seu orgulho, notavelmente o decorrente de ter conseguido fazer feliz, de uma maneira tangencialmente autossacrificial, aquela a quem amava.

E de onde vem tal orgulho anémico que reprime o amor que pode tudo o que o amor pode? O filme é claro quanto a isso: apesar de cantarmos que a fama, as cunhas e as aparências não contam (pois o essencial é o amor que realiza a liberdade), tudo ao nosso redor grita-nos o contrário.

Cyrano terá passado a vida a ser gozado, humilhado e ignorado por não ter tido nada daquilo que o mundano exigia e fomentava (e é exatamente isto que impede a sua amada de o “ver” mais cedo). Porém, se, apesar disto, ele tivesse ousado habitar realmente no amor e nos seus corolários (incluindo a verdade acerca de si e dos demais), isso já teria sido suficiente para chegar a uma sabedoria córdica que, de outra forma, lhe escapou tangencialmente. E a sua (grande) dor vem precisamente desta “tangente”, que também influenciou os argumentistas, os quais, em vez de valorizarem o sentido e o saber amorosos, se encerraram na busca ansiosa e afetada da satisfação emocional.

(* EUA, 2021; dirigido por Joe Wright, com Peter Dinklage; Haley Bennett; Kelvin Harrison Jr.)