Mensagem (165): Pertença

O Cardeal Seán O’Malley, conta que, pelos anos 60/70, os Capuchinhos dos Estados Unidos se tornaram tantos e tão motivados que o Provincial escreveu para Roma a pedir para serem enviados para as missões mais difíceis do mundo. A resposta não se fez esperar: “Partam para a Papuásia”.

Passados dois ou três anos, um desses missionários voltou ao convento em merecido descanso, carregado de fotografias, para mostrar aos confrades as gentes e os ambientes com quem trabalhavam. Eram homens e mulheres com um osso atravessado no nariz, penas de aves espetadas no cabelo e praticamente mais nenhuma roupa a cobrir-lhes o corpo.

O missionário mostrou a foto de um grupo de papuas e apresentou-os: “Estes são os membros do Conselho Pastoral Paroquial”. E, com o seu estilo jocoso, o Card. O’Malley solta dois desabafos: “Primeiro: se fosse hoje, o Superior Geral dos Capuchinhos ordenaria: «Quereis a missão mais difícil do mundo? Evangelizai os Estados Unidos». Segundo: com apenas dois ou três anos de missionação, na Papuásia, já deu para se sentir consciência eclesial e, assim, surgir um Conselho Pastoral Paroquial. E na minha Arquidiocese de Boston, onde o cristianismo chegou há quinhentos anos, há vários padres que me dizem que ainda não o têm porque o não conseguem criar…”.

Para além do divertido desta história, há aspetos que nos devem fazer pensar. A missão, na atualidade, tem fronteiras geográficas? Porque será mais fácil anunciar a Boa Nova da salvação na Papuásia do que nos Estados Unidos ou na Europa? Porque é que o cristianismo, lá, cresce a olhos vistos e, no Primeiro Mundo, regride?

Creio que o problema, entre nós, é o modelo eclesiológico. Muitos fiéis fazem da Igreja uma estação de serviço à qual se recorre somente quando se tem necessidade. Para estes, a Igreja não é sua nem eles se sentem Igreja. Por seu lado, alguns agentes pastorais favorecem esta visão com a ideia, intuída ou expressa, de que eles são os donos da oficina e quem precisar que bata à porta.

A Igreja é o conjunto de comunidades alegres, de gente corresponsável, aberta ao exterior, que adquiriu um forte sentido de pertença. Podem ser comunidades pequenas. Não obstante, muitas vezes, são estas as mais fermentadoras, as que mais garantem o futuro.

E para isto, não é preciso chamarmos os papuas e aprender com eles.

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