Malta. Papa: na noite da guerra “não façamos evaporar-se o sonho da paz”

Foi no Palácio Presidencial que o Papa Francisco se encontrou com as autoridades e a sociedade civil de Malta durante a sua visita àquele país.

Num discurso dirigido também ao Corpo Diplomático, o Santo Padre invocou a ilha de Malta como “o coração do Mediterrâneo” e lembrou o acolhimento que aí teve o “Apóstolo Paulo durante a sua viagem para Roma”.

Francisco referiu-se a Malta como um local de “entrelaçamento de acontecimentos históricos” e de “encontro de populações”. E nessa “encruzilhada” de “cultura, espiritualidade e beleza”, o Papa lembrou os quatro pontos cardeais”.

Do norte, Francisco citou os ventos da Europa e da “casa da União Europeia”. “A honestidade, a justiça, o sentido do dever e a transparência são pilares essenciais duma sociedade civilmente avançada” – sublinhou o Santo Padre exortando uma atitude de “empenho em eliminar a ilegalidade e a corrupção”.

“A casa europeia, que está empenhada na promoção dos valores da justiça e equidade social, encontra-se também na vanguarda da tutela da casa mais ampla da criação” – acrescentou o Papa.

Continuando o seu discurso analisando Malta sob a orientação dos pontos cardeais, Francisco referiu “o vento que sopra de oeste”: “De facto este país europeu, particularmente a sua juventude, partilha os estilos de vida e de pensamento ocidentais. Daqui derivam grandes bens – penso nos valores da liberdade e da democracia –, mas também riscos sobre os quais é preciso vigiar, para que a ambição do progresso não leve a separar-se das raízes” – disse o Papa.

“Conheço o empenho dos malteses em abraçar e proteger a vida. Já nos Atos dos Apóstolos vos distinguíeis por salvar tantas pessoas. Encorajo-vos a continuar a defender a vida desde o início até ao seu fim natural” – salientou ainda o Santo Padre.

“Continuando na rosa dos ventos, olhemos para sul” – prosseguiu Francisco os “muitos irmãos e irmãs” que de lá chegam “à procura de esperança”.

“Quero agradecer às Autoridades e à população pelo acolhimento que lhes dão em nome do Evangelho, da humanidade e do sentido de hospitalidade típico dos malteses” – afirmou.

O Papa lembrou que “segundo a etimologia fenícia, Malta significa «porto seguro»” e recordou “o afluxo crescente” de migrantes nos últimos anos. “Para se enfrentar adequadamente a complexa questão da migração, é preciso situá-la dentro de perspetivas de tempo e espaço mais amplas” – disse o Santo Padre afirmando que “não podem apenas alguns países arcar com o problema inteiro, na indiferença de outros!”

“O Mediterrâneo precisa de corresponsabilidade europeia, para voltar a ser teatro de solidariedade e não a dianteira dum trágico naufrágio da civilização” – frisou.

“E temos, enfim, o vento de leste, que sopra muitas vezes ao amanhecer” – referiu por último Francisco dirigindo a sua atenção para “as trevas da guerra” que chegam da Ucrânia:

“Foi precisamente do leste da Europa, do Oriente onde primeiro aparece a luz, que chegaram as trevas da guerra. Pensávamos que invasões doutros países, combates brutais pelas estradas e ameaças atómicas fossem sombrias recordações dum passado distante. Mas o vento gelado da guerra, que só traz morte, destruição e ódio, abateu-se prepotentemente sobre a vida de muitos e sobre os dias de todos. E enquanto mais uma vez um poderoso qualquer, tristemente fechado em anacrónicas reivindicações de interesses nacionalistas, provoca e fomenta conflitos, a gente comum sente a necessidade de construir um futuro que será vivido conjuntamente por todos ou então não subsistirá. Agora, na noite da guerra que caiu sobre a humanidade, não façamos evaporar-se o sonho da paz” – declarou.

Na conclusão do seu discurso às autoridades de Malta e ao Corpo Diplomático, o Papa afirmou que “a solução para as crises de cada um é ocupar-se das crises de todos, porque os problemas globais requerem soluções globais”.

“Ajudemo-nos a auscultar a sede de paz das pessoas, trabalhemos por colocar as bases dum diálogo cada vez mais alargado, voltemos a reunir-nos em conferências internacionais pela paz, onde seja central o tema do desarmamento, com o olhar fixo nas gerações vindouras! E os enormes fundos que continuam a ser destinados para armamentos sejam aplicados no desenvolvimento, na saúde e na nutrição” – concluiu Francisco lembrando também os problemas de violência no Médio Oriente, em particular no Líbano, na Síria e no Iémen.

RS