Nos 500 anos da rua das Flores

Por João Alves Dias

Em 1521, D. Manuel I mandou abrir a rua de ‘Santa Catarina das Flores’, uma rua calcetada por ‘ pedra miúda’ “ de curta duração mas boa para cavalo andar, (que) tinha seu princípio, como hoje, um pouco à frente do Chafariz de S. Domingos e terminava no cruzamento com a extensa (à época) rua do Souto, onde hoje termina a rua dos Caldeireiros”.

Associando-se às celebrações do seu quingentésimo aniversário, o Professor Ribeiro da Silva, mesário do Culto e da Cultura da Misericórdia do Porto, publicou, em ‘O Tripeiro’ (julho de 2021) um bem documentado estudo sobre “A Misericórdia do Porto nos 500 anos da Rua das Flores” de que me faço eco.

A ‘Santa Casa’, que tivera o seu berço “na Sé, na capelinha de Santiago”, mudou-se logo em 1550, para a Rua das Flores. “Não foi a primeira entidade a erguer morada na artéria manuelina nem a sua sede é a mais antiga construção, mas é a única que permanece na posse do proprietário original”.

Da sua longa memória, quero destacar alguns momentos que contribuíram “notoriamente para o dinamismo da rua e da própria cidade.”

. O primeiro aconteceu, em 1559, aquando da bênção da primitiva igreja ”na presença de muitos homens e mulheres e dos ‘principais Senhores da cidade”. E prolongou-se com as obras de construção: “Até ao fim do século XVI e entrado o século XVII, os trabalhos na Misericórdia contribuíram para que a Rua das Flores continuasse a parecer um estaleiro, onde labutavam mesteirais humildes, mas também artistas de renome.”

.No século XVII, construiu o hospital de D. Lopo de Almeida – “o grande hospital do Porto durante os séculos XVII e XVIII, até ser substituído pelo hospital de Santo António” – que trouxe para a “Rua das Flores, muitos milhares de pessoas da cidade e de fora dela, doentes e familiares, médicos, cirurgiões, sangradores, enfermeiros e enfermeiras, boticários, colaboradores diversos”.

.No século XVIII, a nova igreja, obra do grande Nicolau Nasoni, “constituiu-se em polo de atração dos portuenses pela sua monumentalidade mas também pelos contínuos atos de culto e de sufrágio pelos irmãos falecidos e pelos benfeitores que nela todos os dias, ao longo de séculos, foram celebrados. As procissões rituais, nomeadamente a de quinta-feira santa, já de noite, atraíam muitos forasteiros”.

Ao longo da sua existência, “os pobres, os desamparados, as mães desesperadas por não terem dinheiro para o resgate do marido ou do filho cativo no norte de África, os idosos, os presos, as órfãs, as viúvas, todos os desprotegidos aprenderam os caminhos da Misericórdia. Penso que nela sempre encontraram uma boa palavra, uma esmola, uma ajuda”.

E atualmente? “Hoje os tempos são outros. A Rua das Flores recuperou da imagem deprimente e insegura que até há pouco era a sua fama, e não só recuperou como superou o primitivo encanto. (…) Os belos edifícios requalificados são os mesmos, talvez outras finalidades e préstimos. E a Misericórdia também continua lá, servindo todos os que sentem fome de cultura. O MMIPO (Museu e Igreja da Misericórdia) aponta, no tempo presente, o caminho para se conhecerem as ações e o verdadeiro espírito da Misericórdia, do passado e do presente, e, para se entender como o culto da beleza e a difusão do conhecimento podem ser uma verdadeira obra de misericórdia”

Vale a pena percorrer demoradamente essa rua, “rompida em terrenos que pertenciam à Mitra e ao Cabido” onde “ainda hoje a roda dentada de Santa Catarina de Alexandria, símbolo escolhido pelo Bispo D. Pedro da Costa (1507-1535) ou o Arcanjo S. Miguel, sinal do Cabido, que se podem admirar em algumas fachadas, testemunham essa vetusta marca do senhorio eclesiástico”. Quem os descobre? Fica o desafio…