O novo Missal Português

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

Retomando a apresentação das inovações ou alterações previstas no novo Missal para Portugal, mencionamos aqui algumas mudanças de pormenor previstas nas Orações Eucarísticas:

– Na Oração Eucarística I (Cânon Romano), acrescenta-se «vossos servos» à intercessão que se segue ao memento dos defuntos: «E a nós pecadores, vossos servos». Trata-se de repor uma expressão que consta do latim e cuja omissão no MR de 1992 terá sido casual e inadvertida. Diríamos que «ficou no tinteiro»! Efetivamente, o latim diz: «Nobis quoque peccatoribus, famulis tuis».

Os «fâmulos» são pessoas da casa, integrantes da família, na qual desempenham funções de serviço. Já não são bem «escravos», mas antes servidores, «criados». Na grande família da Igreja, diríamos que esse é o estatuto honroso dos clérigos, do presidente e dos concelebrantes aos quais a rubrica manda bater com a mão no peito (cf. IGMR 224) no reconhecimento humilde de que são pecadores e, ao mesmo tempo, no gesto indicativo que deixa bem claro quem são os «servos» pecadores.

O Cânon Romano designa como «fâmulo/fâmulos»:

– o Papa («una cum famulo tuo Papa nostro…» – «em comunhão com o vosso servo, o nosso papa»);

– os vivos dos quais se faz memória («Memento, Domine, famulorum famularumque tuarum» – «Lembrai-Vos, Senhor, dos vossos servos e servas»);

– os fiéis defuntos («Memento etiam, Domine, famulorum famularumque tuarum qui nos pracesserunt cum signo fidei…» – «Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas N. e N., que partiram antes de nós, marcados com o sinal da fé…» ;

– o celebrante com os ministros que rodeiam o altar («Nobis quoque peccatoribus famulis tuis» – «E a nós pecadores, vossos servos»).

Os fâmulos, que aqui se reconhecem pecadores, já antes se tinham declarado «servos» que cumprem o memorial em obediência ao mandato dado pelo Senhor na Ceia («Hoc facite in meam commemorationem. Unde et memores…» – «Fazei isto em memória de Mim. Celebrando, agora, Senhor o memorial…») e oferecem o Sacrifício  juntamente com o Povo Santo («… nos servi tui, sed et plebs tua sancta» – «nós, vossos servos, com o vosso povo santo»). São pecadores, sem dúvida, mas, não obstante servos de Deus, com muita honra! Embora, numa exegese estrita, os servos pecadores, aqui mencionados, sejam o celebrante e os concelebrantes – é a eles que a rubrica manda acompanhar estas palavras com o gesto de bater com a mão no próprio peito –, contudo, ao ouvir esta oração e unir-se a ela, os demais fiéis presentes – a «plebs tua sancta» – não deixarão de se sentir também «pecadores», como, aliás, já reconheceram no Ato penitencial. Pecadores e, ao mesmo tempo, fâmulos, «criados», servos mais ou menos inúteis, segundo a parábola (Lc 17, 10).

– Na Oração Eucarística II, na comemoração dos Santos, após a menção dos Santos Apóstolos, abre-se um parêntesis em que se admite a menção nominal do Santo do dia ou do Santo padroeiro. Esta possibilidade não está prevista na edição típica latina que só contempla essa opção na Oração Eucarística III. Entretanto, era prática comum espontânea de muitos celebrantes, agora acolhido na edição típica.

– Na Oração Eucarística IV, o vocativo «Pai Santo» – eco da «Oração sacerdotal» de Jesus em Jo 17 – deixa de estar intercalado no texto, mas passa a abrir as frases, ritmando a prece. Assim, em vez de «Nós vos glorificamos, Pai Santo», diz-se «Pai Santo, nós vos glorificamos…». Não há qualquer alteração do sentido mas, seguindo a ordem sintática normal do vocativo em português, dá-se maior relevo ao Pai, o destinatário da Oração Eucarística.