Fraternidade: ser irmão para lá dos laços de sangue

Foto: Vatican Media

Um olhar sobre as Jornadas de Teologia da Universidade Católica Portuguesa

Por Bruno Aguiar

Entre os dias 7 e 10 de fevereiro, realizaram-se as já habituais Jornadas de Teologia, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica. Tal como foi dito no discurso de encerramento, «quando nos enviam uma carta, devemos responder» e foi isso que cada um dos oradores tentou fazer, tendo como ponto de partida a encíclica Fratelli Tutti e, mais propriamente o tema da fraternidade.

Um ponto comum entre os diferentes oradores foi a necessidade de esclarecer o significado de fraternidade. Esta, embora tenha a sua raiz nas relações familiares, não deve considerar-se uma simples relação entre irmãos (que tantas vezes desemboca em violência, como no caso de Caim e Abel, várias vezes evocado), mas antes uma relação inter-humana baseada na gratuidade, pois como foi dito numa das sessões «Não é o facto de termos irmãos que nos faz mais cuidadores, mas o facto de não termos irmãos cria-nos desafios novos». Por esse motivo, também foi várias vezes referido que essa relação fraterna não deve pensar-se como uma relação idílica, mas antes um espaço de aprendizagem para a vida em sociedade. Essa aprendizagem, que tanto pode acontecer na vida familiar, como numa comunidade monástica ou nas relações de amizade fraterna, resulta quer da consciência de que temos de partilhar os recursos e o espaço, quer da contraposição que pode surgir em relação às nossas opiniões, já que isso nos ajuda a fundamentar a nossa identidade. Para além disso, como também foi dito por um dos oradores, «a vulnerabilidade, que hoje sentimos na comunidade eclesial, pode ser uma ocasião privilegiada para assumirmos e partilharmos as nossas deficiências».

Essa noção de fraternidade, trouxe às jornadas um outro tema, tantas vezes difícil de definir, que é o da empatia. A partir da reflexão de Edith Stein ficou claro que empatia é diferente de simpatia. Enquanto a simpatia corresponde à vivência que se tem em relação a alguém (por exemplo, se se gosta de uma pessoa ou não), a empatia corresponde à vivência do outro que é sentida como nossa. Embora isso seja impossível a um nível pleno, já que nunca conseguiremos sentir a dor ou a alegria do outro, do modo que ele a sente, essa empatia por alguém permite-nos reconhecê-lo como nosso semelhante, abrindo portas à construção da fraternidade.

Embora se possa questionar se a fraternidade universal é possível, ou se, como foi dito, a fraternidade acaba por ter implícita alguma violência e subjugação, a ideia que atravessou a totalidade das jornadas é que fraternidade implica uma relação assente na gratuidade, com os aspetos positivos e negativos inerentes a qualquer relação (como a entreajuda ou o conflito). Deste modo, não pode ser vista como algo meramente imposto pela força da lei, mas tem de ser algo a construir por cada um de nós, de forma a que «a Igreja, a família e a política têm de voltar a essa fonte (que é Cristo), onde a fraternidade está continuamente acessível a nós e jorra continuamente para nós.»