‘A cauda da desigualdade’

No dia 17 de outubro, na apresentação da obra póstuma “Que Fizeste do teu Irmão – Um olhar de fé sobre a pobreza no mundo”, o Presidente da República atribuiu ao seu autor, Alfredo Bruto da Costa, a ‘Ordem da Liberdade’  porque, disse, “uma forma de viver a profecia é viver a libertação da pobreza e Bruto da Costa transformou isso no desígnio da sua vida”

Por João Alves Dias

Algumas perguntas:

– Quem foi este cidadão português que mereceu tão alta distinção?

No dizer do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, foi “um profeta que pensava com rigor científico e agia”; que “não dissociava a ciência e a fé”. Tolentino Mendonça afirmou que ele “sabia bem que, quando escolheu o combate à pobreza como a causa da sua vida, tinha do seu lado a grande tradição da Igreja, a começar pelos Evangelhos, os Padres da Igreja os Concílios e os magistérios dos papas”.

A sua resposta: “Sou um cristão comum, que, como os demais cristãos comuns, vive no meio do mundo. Sempre tive uma profissão em moldes idênticos aos de qualquer outro cidadão. Cursei engenharia, tenho trabalhado em assuntos económicos e sociais, tenho exercido alguma docência universitária e investigado sobretudo em domínios relacionados com a pobreza. Como disse, ganhei algum conhecimento da pobreza, na perspectiva das ciências sociais. Porém, nos domínios da teologia, dos estudos bíblicos ou da pastoral, tenho sido um simples curioso (talvez um pouco mais do que isso) e o pouco que sei resulta de um estudo disperso e autodidáctico”.

– Porquê este livro? Ouçamos a sua explicação: ”Este é um livro diferente. Contém, fundamentalmente, uma reflexão ética e, mais particularmente, uma tentativa de confrontar a pobreza no mundo com as exigências da fé cristã”.

Mais adiante, acrescenta: “Possivelmente, o núcleo central da motivação para registar e publicar estas reflexões estará num certo desfasamento, porventura, apenas aparente, que verifico entre o que me parece ser, por um lado, o lugar da pobreza (nos seus diversos significados) na mensagem evangélica e, por outro, o entendimento que a esse respeito parece ter a maior parte dos cristãos e até a pregação corrente nas comunidades cristãs. Refiro-me à pregação corrente. Quanto ao Magistério da Igreja, seria grosseiramente incorreto dizer o mesmo. Pelo contrário, como o leitor terá ensejo de verificar nas inúmeras citações que encontrará ao longo deste livro, de documentos do Magistério, sobretudo de Padres da Igreja, de Papas e do Concílio Vaticano II.”

– Qual o cerne do seu pensamento? Detenho-me no subtítulo. ‘A cauda da desigualdade’: “No princípio dos anos noventa, deparei com um texto do sociólogo inglês Victor George em que o autor definia a pobreza como a cauda da desigualdade, perspetiva muito diferente das que surgiam na literatura. Nunca mais me esqueci da definição, mas só recentemente me apercebi das implicações que a definição poderia ter no modo de compreender a pobreza. (…) Com efeito, se a pobreza é a cauda da desigualdade, existirá enquanto exista a desigualdade.” (in 7Margens)

Quão longo é o caminho a percorrer…Dar uma esmola é bem mais fácil que sentir e tratar o pobre como um igual… Refletir e ajudar a esbater esta chaga que deforma a face da Humanidade e ofusca a “boa nova anunciada aos pobres (cf. Mt, 11, 5) será um modo bem evangélico de celebrar o Natal de Jesus.