A família e a saúde mental das crianças

A propósito do ‘Dia Mundial da Saúde Mental’ em 10 de outubro passado, o “Diário de Notícias” publicou o elucidativo artigo “A saúde mental constrói-se desde cedo”, assinado pela pedopsiquiatra, Dra. Sara Melo. Dada a sua oportunidade e interesse, é com vénia que dele me faço eco.

Por João Alves Dias

A autora revela-se preocupada face aos resultados de um estudo da ‘OMS’ envolvendo 6000 adolescentes portugueses que ”revelam um preocupante decréscimo global da sua saúde mental e física”.

Faço-me silencioso e deixo-vos com a médica jovem que, à competência profissional, alia a experiência de mãe de três filhos ainda menores.

– Começa por alertar os pais para a necessidade de “estar atentos a mudanças no humor, no comportamento ou nas rotinas dos filhos e procurar a ajuda de um profissional de saúde” porque ”a ciência tem vindo a demonstrar que a saúde de um adulto é influenciada por acontecimentos e vivências nos primeiros anos de vida e, até mesmo, antes do nascimento. Isto diz respeito não só à saúde física – hábitos alimentares, acidentes, atividade física – como também à saúde emocional e desenvolvimento psicoafectivo”.

– Demora-se especialmente nos tempos da primeira infância, uma vez que “os dois primeiros anos de vida são a fase em que o desenvolvimento humano é mais rápido: neste período, a criança cresce, adquire a marcha autónoma, a fala e inicia a socialização. Por outro lado, sendo um período de vida em que a dependência do meio é maior, é também uma das fases de maior vulnerabilidade e que pode condicionar o percurso do bebé que irá crescer e será um adolescente e um adulto com mais ou menos saúde mental”.

– Descendo ao campo do concreto, esclarece: “Um dos aspetos mais importantes para promover a saúde mental na infância e adolescência, é saber conhecer e compreender a criança em crescimento. Conhecer a criança é saber o que esperar em cada fase de desenvolvimento e conseguir interpretar o seu comportamento. É perceber quando alguma queixa corresponde a algo normativo, típico de uma fase de desenvolvimento e, por isso mesmo, sem significado clínico e, por outro lado, estar atento a comportamentos que se mantêm por várias semanas ou meses, que são demasiado intensos ou que interferem de forma muito importante no funcionamento da família”. Esta destrinça entre normalidade e anormalidade de comportamentos é fundamental para um sadio crescimento da criança sem ansiedades nem frustrações.

– Termina com um conselho. “Os pais devem procurar ajuda sempre que se sentirem preocupados, com dúvidas ou angustiados em relação a algum comportamento do seu filho, independentemente de este corresponder a um mal-estar ou a um sinal mais patológico. Pais angustiados são pais ansiosos e isso, por si só, vai interferir na relação com a criança de forma importante. Estar atento a mudanças no humor, no comportamento, nas rotinas dos filhos e procurar ajuda atempada junto de um profissional de saúde, sem se invadir por sentimentos de incompetência, vergonha ou medo, são a rampa de lançamento para uma vida adulta com saúde mental. E lembrem-se: não há saúde física sem saúde mental”.

E veio-me à mente as palavras que o Papa Francisco escreveu no twitter no Dia Mundial da Criança e do Adolescente convocado pela Unicef: “Toda a criança precisa ser acolhida e defendida, ajudada e protegida desde o ventre materno”.