A história da senhora Claudina e o Sínodo

“Mas, quantos anos tem?” -perguntei. “Olhe, sei lá uns quase oitenta, aí para uns setenta e cinco, dever ser” – respondeu. Claudina vive num bairro, conhecido por ilha do Bico, com um filho acima de quarenta anos, e dois netinhos, ou melhor, uma netinha e um netinho.

Por Joaquim Armindo 

O filho – trolha de profissão – anda nas “obras”, vai tendo trabalho, mas às vezes falha. “É o vinhito, é o vinhito, sabe”, responde a senhora Claudina, para desculpar o filho. Este nunca casou e a senhora que vivia com ele, um dia desapareceu com outro deixando os filhos, ao cuidado da avó. A senhora Claudina vai fazendo uns recados, ainda limpa uma casa meio-dia por semana e faz umas bainhas. “É pouco, sabe, mas com o subsídio dos do governo, vai dando para alimentar e viver com os meus netinhos, até porque um já vai fazendo uns biscates nas obras”. A netinha, de nome Rosália, anda ainda na escola, mas é “um peso, porque os cadernos ainda custam muito dinheiro”. Nem sempre o filho fica em casa, às vezes vem, outras “olhe, não sei! fica em casa de alguma”. “O menino sabe está batizado”, mas a menina não, isso porque o “senhor padre, que até é muito boa pessoa, queria dinheiro e que o pai estivesse com a mãe, mas se Deus quiser ainda hei de arranjar a batizá-la, gostava muito”.

Esta história é verdadeira, só os nomes não são. Muitas outras histórias iguais e parecidas com esta existem na cidade do Porto e arredores. Segundo a senhora Claudina também lhe vale as “senhoras da conferência” que lhe deixam alguns alimentos e até dinheiro para os medicamentos que, infelizmente, tem de tomar, é doente cardíaca. Até são alguns dos vizinhos que lhe arranjam “de comer” para os netinhos, quando tem de ir ao hospital por causa do coração. Está sempre à espera do filho – que anda nas “obras” -, pelo menos para dar uma ajudita nas despesas, mas ele só vem de vez em quando para ver os filhos, “ainda se lhes trouxesse alguma coisa, mas tantas vezes ainda leva”.

Se a senhora Claudina pudesse “sair de casa” e andar de avião (“não gosto de andar de avião, Deus me livre!”), se sentasse numa das cadeiras do próximo sínodo e contasse a sua história, pus-me a pensar a alegria das boas sugestões que poderia dar a toda a igreja, porque ela é católica e gosta muito de Nossa Senhora das Dores, no Sínodo que aí vem.

Ela, a senhora Claudina, não sabe o que é o sínodo, nem para que serve, mas sabe o sabor da vida madrasta que tem, e sabe que quer batizar a netinha.