Feliz coincidência

No dia 17 de outubro ocorrem dois eventos significativos na diocese a que pertencemos: celebra-se o 20º Dia Diocesano da Família e dá-se início à fase diocesana do Sínodo 2023.

Por Ângelo Soares

Com o tema “Todos família, todos irmãos”, o primeiro evento congrega, em celebrações realizadas nas várias vigararias da diocese, os casais que em 2021 celebram 10, 25, 50 ou 60 anos de matrimónio, totalizando cerca de 1200 casais. Merecem destaque especial dois casais que celebram 70 anos de casamento.

A todos esses casais diz o nosso bispo, na mensagem que lhes dirigiu: “Vós sois um dom! Começais por ser um dom para cada um daqueles que compõem o matrimónio, marido para a esposa a esposa para o marido, mas também na relação com os filhos, que Deus vos deu a possibilidade de gerar, e a sua forma de os inserir no mundo e educação. (…) Isto é um dom extraordinário! Redescobri-o, valorizai-o, cultivai-o!”

O segundo evento é uma grande novidade. O Papa Francisco voltou a surpreender: quis que o Sínodo marcado para 2023 com o tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”, seja um caminho feito por toda a Igreja em várias etapas, começando já em cada diocese através da auscultação livre de toda a gente, crente ou não, sobre como há de a Igreja concretizar estes três aspetos que a devem caraterizar. O discurso que o Papa fez a 18 de setembro à sua diocese de Roma sobre este assunto é muito claro e interpelador.

Um bom ponto de partida é a etimologia da palavra, composta das palavras gregas “Syn” (“Com”) e “Hodós” (“Caminho”). Sínodo significa, então, “caminho com”, ou “caminho juntos”. Caminhar juntos é, portanto, a essência do ser Igreja que, enquanto imagem e presença de Deus, é necessariamente comunhão. O Papa desafia-nos a todos a fazer este caminho juntos, não como uma experiência esporádica, mas como modo de viver em Igreja todos os dias.

Em concreto, este Sínodo coloca a pergunta: De que modos a Igreja que formamos deve caminhar para viver em comunhão, não só entre os seus membros, mas com toda a gente, assegurando a participação de todos na definição destes caminhos e nas escolhas que vão tendo de fazer-se, e realizando a sua missão de ser “sal da terra e luz do mundo”? A grande novidade é este retorno à essência do ser Igreja: o envolvimento de todos, consagrados ou leigos, crentes ou não, neste caminho.

Não se trata de ouvir só os bispos, ou alargar aos sacerdotes e talvez aos leigos mais empenhados na vida pastoral; trata-se de ouvir mesmo todos, acreditando que “o Espírito sopra onde quer”.  E trata-se de assumir este caminho como um processo contínuo, não como uma consulta geral a preceder decisões de “quem manda”. Não estamos habituados a isto, mas só assim é que a Igreja pode ser fiel ao mandato que a constitui.

O ser família ajuda-nos a perceber este caminho sinodal. Na família há diversos papéis, diversas responsabilidades e tarefas, mas numa família feliz todos se interessam por todos, todos cuidam de todos, todos têm uma palavra a dizer sobre o modo como a família vive e sobre como deve construir a sua felicidade. Sabemos bem que há famílias em que não é assim, em que o pai ou a mãe mandam e todos obedecem sem conversar, muito menos discordar ou discutir. Mas também sabemos que nas famílias felizes isso não acontece; pelo contrário, sem pôr em causa o lugar de cada um, todos se preocupam com todos e todos se envolvem na felicidade uns dos outros.

Só precisamos de transpor isto para a “família de famílias” que é a Igreja!