“Pensar e gerar um Mundo aberto”

(Continuação do número anterior)

No capítulo III da Fratelli Tutti, o Papa Francisco começa por dizer, no número 87, que “o ser humano está feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve, nem pode encontrar plenitude a não ser no sincero dom de si mesmo aos outros”.

Por João Alves Dias

É com os outros que nascemos, vivemos e nos fazemos. A vida é a arte do encontro.

No nº 92 – O valor único do amor– fala do essencial da” estatura espiritual de uma vida humana” que é “medida pelo amor”. E alerta: “Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade ou em grandes demonstrações de força”.

Voltando a um tema que lhe é caro, afirma que há «periferias existenciais» bem próximas de nós, “no centro de uma cidade ou na própria família” (97).

E, no número 98, concretiza: “Quero lembrar estes ‘exilados ocultos’, que são tratados como corpos estranhos à sociedade. Muitas pessoas com deficiência sentem que vivem sem pertença nem participação. Penso igualmente nos idosos que, inclusive por causa da sua deficiência, são, por vezes, sentidos como um peso.”

Depois, no número 101, denuncia o “ mundo de sócios” em que vivemos e urge superar. Nos esquemas vigentes é ”possível apenas ser próximo de quem me permite consolidar os benefícios pessoais. Assim o termo ‘próximo’ perde todo o significado, fazendo sentido apenas a palavra ‘sócio’, aquele que é associado para determinados interesses”.

Somos uma sociedade organizada em condomínios fechados onde apenas entra quem interessa.

Abordando a trilogia “liberdade, igualdade e fraternidade” (nº 103), diz que “a fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática de uma certa equidade. Embora sejam condições que a tornam possível, não bastam para que a fraternidade surja como resultado necessário”. Conclui: “O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos”(nº 105). A fraternidade não brota da lei mas do coração.

E deixa um apelo à família “o primeiro lugar onde se vivem e transmitem os valores do amor e da fraternidade, da convivência e da partilha, da atenção e do cuidado pelo outro”. Afirma que “os valores da liberdade, respeito mútuo e solidariedade podem ser transmitidos desde a mais tenra idade”.

Porque esta encíclica visa abrir para “um novo sonho de fraternidade que não se limite a palavras”, vem-me à mente a história das ‘duas galinhas’. Diz assim:

Dois amigos falavam sobre a injustiça social. Então, um pergunta ao outro: – “Se tivesses dois apartamentos de luxo”, doarias um para os pobres?” – “Sim”, respondeu o amigo. –“E se tivesses um milhão na conta bancária, darias 500 mil aos pobres?” – “É claro…”, respondeu. “- E se tivesses duas galinhas, darias uma a um pobre?” – “Não”, respondeu sem hesitações. – “Mas – pergunta o outro surpreendido – porque é que tu doarias um apartamento de luxo, se tivesse dois; 500 mil, se tivesse um milhão, mas não doarias uma galinha, se tivesses duas?” – “Porque essas, eu tenho…”

Fácil, fácil é dizer o que os outros deveriam fazer ou prometer o que se não tem. Difícil, difícil, é fazer ou dar o que se tem… (Continua)