Sobre as Jornadas de comunicação

Dois acontecimentos foram notórios na semana passada: um muito badalado em todos os  órgãos de comunicação e em todos os órgãos de conversação (estes são mais interessantes para os que os usam todos têm razão); outro foi o encontro designado por Jornadas de Comunicação Social (este permaneceu mais esquecido, envolto em bruma mediática, justamente porque foi mais consensual, já que o que é consensual interessa pouco). Comecemos então por este.

Por M. Correia Fernandes 

O Secretariado Nacional da Comunicação Social promoveu as Jornadas Nacionais de Comunicação Social, que decorreram em 23 e 24 de setembro de 2021. Estas Jornadas têm sido uma tradição nos últimos anos, apesar de interrompidas por causa da pandemia. Têm permitido aos meios de comunicação de inspiração cristã, bem como a membros de muitos outros que participaram, especialmente da imprensa regional, uma oportunidade de reflexão muito positiva, com a presença de personalidades com leituras diversificadas do fenómeno mediático e do seu desenvolvimento tecnológico e temático nas últimas décadas.

Do programa deste ano, que contou com a presença de D. João Lavrador, Bispo de Angra, na qualidade de Presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais, entretanto nomeado Bispo de Viana do Castelo (a quem Voz Portucalense saúda, lembrando a sua prestimosa colaboração, nos tempos de Bispo Auxiliar do Porto, neste semanário), referimos  duas conferências, escutadas presencialmente e seguidas por muitos através da transmissão por videoconferência, e delas  salientam-se dois temas. No primeiro dia José Gabriel Vera, secretário da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais da Conferência Episcopal de Espanha, falando em espanhol, recorrendo à sua experiência naquele organismo, propôs uma análise dos planos e projetos da comunicação social nas dioceses de Espanha e das novas perspectivas que se podem abrir à comunicação social de inspiração cristã e católica, tanto no caso espanhol como na sua semelhança e proximidade com o caso português.

O segundo dia, para além de experiências partilhadas, uma outra conferência, proposta por Nelson Ribeiro, da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, apresentou uma adaptação das palavras do Papa “comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são” às experiências e formas de comunicação hodiernas.

Salientou sobretudo o valor da dimensão do relacionamento e proximidade para a eficácia da comunicação, estabelecendo o paralelismo entre conteúdo e relação, propondo um “jornalismo de cidadãos”, que utilizando as capacidades da evolução tecnológica hoje universalmente disponível, através dos mais variados processos técnicos, consiga transmitir à sociedade uma reflexão séria sobre os valores e dinamismo que ela deve assumir, no sentido de valorizar a pessoa em ordem a uma convivência social e humana mais equilibrada.

A reflexão sobre as novas plataformas de comunicação através da internet mereceu especial atenção ao orador, que estabeleceu a distinção entre a responsabilidade dos meios tradicionais (jornais, rádio, televisão), em que os autores são identificados e responsabilizados, e os das redes sociais, em que a origem dos dados é anónima, originando uma espécie de marcado de notícias falsas em que se digladiam interesses mais ou menos ocultos e inconfessados. O valor do digital deve tornar-se um valor de presença e proximidade.

A proposta avançada é a de promover a literacia de compreensão, criar uma opinião pública sensata e refletida, em ambiente democrático, superar as histórias emocionais, geradas pela televisão (que disso vive), através de análises racionais equilibradas, pela aprendizagem de uma leitura reflexiva que saiba passar da palavra ao texto, de sensação ao pensamento.

Importa “credibilizar as fontes”.

Neste contexto acentua que a defesa da liberdade de imprensa (isto é, de toda a forma de informação) é vista como caminho para o debate público esclarecido e como um antídoto para o aparecimento de ditaduras.

Falou ainda de instrumentos para desmascarar a falsidade: “Como sociedade precisamos apostar na formação dos cidadãos, no pensamento crítico para distinguir a desinformação da informação”.

Como reflexão de encerramento, a Diretora do Secretariado Nacional, Isabel Figueiredo, elaborando um resumo da Jornada, produziu um agradecimento ao papel dos jornalistas neste esforço de proclamar a verdade e a mensagem fraterna entre o povo, acentuando que os media de inspiração cristã constituem uma plataforma importante de verdade para contrapor às mensagens deletérias que nos inundam, tendo o Bispo D. João Lavrador exaltou esta dimensão da comunicação na Igreja e na sociedade como fonte de espírito de Humanismo e de fraternidade, agradecendo também a coragem e ação de muitas iniciativas dos jornalistas no contexto da pandemia.

Sobre as eleições, está tudo dito. Salientemos a abstenção (o Presidente da República manifestou-se entristecido pelo facto, apesar dos múltiplos apelos): importa rever os cadernos eleitorais: como é possível que haja 9,3 milhões de eleitores – maiores de 18 anos em 10,4 milhões de cidadãos?), a mudança de municípios emblemáticos em que a governabilidade se tornou duvidosa, e as projeções das eleições autárquicas para o universo da governação do país.

Sobretudo importa que os cidadãos tomem consciência de que votar não é apenas um direito, mas um dever. O voto não é entre nós legalmente obrigatório, mas é-o cívica e eticamente. As mensagens dos responsáveis não têm posto isso em evidência.