Honrar o fenómeno religioso

O recente debate sobre o que se passa no Afeganistão passou por cima de uma questão de fundo que é o fenómeno religioso. Ora, a nosso ver, esta questão é decisiva para a paz e da segurança do mundo.

Por Jorge Teixeira da Cunha

De um modo geral, o fenómeno religioso continua a não é tratado com a profundidade que lhe é devida e com a importância que tem realmente na vida humana. O Ocidente continua a ver a componente religiosa da questão afegã como um simples problema de fanatismo religioso. Por ouro lado, os orientais continuam a olhar para o caminho da laicidade como uma queda no niilismo. Ambos os caminhos falham a questão de fundo que é o esclarecimento do fenómeno religioso e a sua importância para a convivência humana pacífica.

A nossa mentalidade política e mediática continua, em grande medida, prisioneira de um preconceito positivista e laicista que justificou a crítica moderna da religião como um fenómeno nocivo para a cultura. O aumento dos conhecimentos das ciências naturais, primeiro, e das ciências humanas, depois, desenvolveram a ideia de que as religiões do livro (judaísmo, cristianismo e islão) estavam baseadas em conhecimentos errados ou deficientes. As ciências sociais viram na religião uma legitimação das estruturas soais injustas. Por sua vez, a psicologia e a psicanálise viram a atitude religiosa como uma parasita da alma de que era preciso livrar-se o mais rapidamente possível. Esta mentalidade continua a justificar muitas análises do que se passa no mundo de hoje.

É necessário afirmar com clareza que estas críticas do fenómeno religioso estão completamente superadas. Os estudos da religião e a evolução da teologia, ao menos da teologia cristã, há muito que olham o fenómeno religioso com outros olhos. O estado dos conhecimentos vai no sentido de superar a mentalidade funcionalista a respeito da religião, quer dizer, a ideia de que a religião pode ser reduzida a algo diferente dela mesma. Por este novo caminho, o religioso é visto como um fenómeno originário da existência humana e não como um fenómeno parasitário que deve ser combatido e superado. Claro que a experiência religiosa histórica e concreta necessita de ser purificada pela ascese e iluminada pela racionalidade de uma teologia e de uma ética.

Este novo contexto tem dificuldade em fazer o seu caminho na cultura oficial. Mas é muito importante que isso aconteça. Sem isso, a nossa compreensão de assuntos como a questão afegã ficará sempre muito limitado. Uma estratégia política e militar que não tenha em conta a originalidade da religião falhará, como falhou em grande medida, os seus objectivos de criar condições de paz e segurança do mundo.

Daqui se seguem algumas consequências. O Ocidente pode dar algum contributo, mesmo militar, para a segurança do mundo, se estiver assente em algumas convicções. Entre essas avulta uma promoção da liberdade e da democracia que assente no respeito e na valorização da atitude religiosa como uma experiência humana básica. Neste sentido, se pode dizer que a liberdade religiosa é o fundamento da democracia. Não se pode exportar a democracia. Mas pode-se testemunhar uma convicção sobre o fundamento democrático da vida política no respeito de vida espiritual e religiosa do ser humano. Quando o Ocidente leva na sua bagagem intervencionista apenas a pobreza de uma cartilha niilista era melhor não consumir vidas e recursos. Se, pelo contrário, leva a força da razão e o testemunho da escuta do divino como base da liberdade, pode usar a sua influência benéfica em ordem à paz e à segurança mundial. Mas o Ocidente ainda acredita em alguma coisa?