
Quando se próxima o tempo de férias, para quem tem o privilégio de as ter, é de toda a conveniência dar algum tempo ao invisível que funda o nosso viver quotidiano. Nos dias comuns, escasseia o tempo para a poesia, para a escuta do divino e para a oração. Haverá condições para isso na cultura de hoje?
Por Jorge Teixeira da Cunha
Algumas vezes, comprazemo-nos a descrever o nosso tempo como fechado ao espiritual. Alguns teólogos gostam mesmo de assinalar que somos a primeira geração descrente. Às vezes, assim aparece o nosso tempo ao olhar atento. E, no entanto, há também sinais da disponibilidade da nossa cultura para o divino e o espiritual. É precisamente a estes que queremos aludir hoje brevemente.
Um primeiro sinal de disponibilidade para o divino aparece-nos como experiência estética. A estética é o sentimento da realidade. Não se trata de um capítulo entre outros da apreensão do real, mas como a forma mais originária dessa apreensão. A cultura de hoje privilegia a fruição, preferindo-a mesmo à utilidade e a outras formas de construção do mundo. Este ponto é muito importante para nos guiar na proposta da experiência religiosa. Por esta via, a experiência religiosa é uma fruição de si e também uma fruição do divino que vem à experiência humana. Cremos que é por isto que os grupos de oração são cada vez mais populares. É também por isso que muita gente se inscreve em grupos de peregrinos que vão a Santiago de Compostela, a Fátima e a outros santuários. A caminhada a pé, a contemplação da paisagem, a solidão, o esforço físico, dão a viver a realidade por uma via conforme com o espírito da cultura. A nossa pastoral tem de ter em conta esta disponibilidade da cultura para experienciar o divino pela via estética, como forma de experiência do divino que se manifesta no fundo da alma humana.
Em segundo lugar, podemos dizer que a estética é a primeira forma de vida activa. No passado, viu-se a acção como forma de fazer coisas, de militar por objectivos, de realizar sonhos, de lutar por ideais de justiça. Isso não deixou de ter sentido, mas tem de ser pensado de outro modo. O que não for sentido não tem sentido para os nossos contemporâneos. Temos, por isso, de dar a viver e a sentir as coisas da fé, se quisermos mobilizar as pessoas. Este ponto é muito importante para pensar de novo formas de apostolado como foram os movimentos de acção católica, que tanto sucesso tiveram no passado e tanta dificuldade encontram no presente. A acção é tão originária como a estética, mas tem de ser aprofundada até se identificar com o seu sujeito, sob pena de ser insignificante. A nossa cultura vive da acção, mas num sentido diferente das formas representadas do passado. Hoje não há utopias nem grandes narrativas para mobilizar o mundo. Temos de pensar de outro modo as coisas.
Em terceiro lugar, temos de dar Deus a viver de outro modo. A nossa cultura não deixou de sentir Deus, mas deixou de o representar. Deus é um hóspede misterioso da alma. Os nossos contemporâneos não vêm Deus nas grandes organizações burocráticas nem nas formas muito expressivas da indumentária de agentes de porte impecável. Pelo contrário, estão disponíveis para o escutar na brisa da tarde das experiências de fruição, de silêncio, de boa música, da palavra poética autêntica. Todas estas foram de dar o divino a viver se encontram para lá das convenções do passado.
É necessário parar para sentir o tempo e para pensar de novo tantas coisas da nossa pastoral e da organização das nossas Igrejas. Que este tempo estival nos proporcione algum tempo para este exercício tão importante e tão necessário.