Dia de Portugal: sentido comunitário, vivência democrática

Foto: António Araújo / Lusa

Ocorre em 10 de junho o designado “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Esta designação foi introduzida recentemente, superando a designação de “dia da raça” que vinha do Estado Novo.

Por M. Correia Fernandes

Em anos de anti-racismo epidérmico, uma tal designação poderia ser considerada como uma provocação de mau gosto. O acentuar o sentido nacionalista através da referência tradicional “de Portugal”, que aliás de verifica em outros países, pode ter uma simbologia limitativa e exclusivista. A referência às comunidades portuguesas pode considerar-se integradora e por isso justifica um lugar. Por outro lado a referência a Camões constitui uma paternidade incontroversa do épico e lírico, que possa induzir um reconhecimento maior do que aquele que lhe é habitualmente atribuído, expresso também na sua dimensão universalista.

Importa pensarmos agora num ideário que congregue para esse dia um espírito nacional ordenado em torno de algumas linhas de orientação que possam ser espiritualmente produtivas para o sentimento comum em torno de valores  coletivos que valha a pena proclamar e assimilar.

Um desses valores será por certo a democracia, e os seus múltiplos conteúdos. Nem sempre é fácil defini-los e sobretudo os ângulos de visão dessa realidade social originam conteúdos diferentes: democracia política, democracia social, democracia económica, democracia representativa, democracia  cultural, democracia real e efetiva, que engloba todas as outras.

Os valores democráticos não são apenas os da organização social, mas os da participação nas decisões e benefícios que daí devem advir, e nas obrigações que os possam construir.

Há dimensões esquecidas que imporá reavivar: uma política inovadora, construtiva de soluções virtuosas,  e não fabricadora mas superadora de conflitos, assente em conceitos de edificação e projetos coletivos e não de desvirtuação dos projetos dos adversários.

A criação de uma economia de serviço e de equilíbrio social, de repartição equitativa e não de concentração interesseira e irracional de riqueza.

Uma educação com novas linhas de orientação, de profundo sentido humanista, nos campos ecológico, ético, social, cívico, de convivência e partilha.

Uma política de ambiente: o que é? O ambiente surge como um ente de razão, dificilmente definível nos seus conteúdos e no seu alcance, uma espécie de palavra de moda e de função realizada por outros serviços e dimensões da vida (a agricultura, a indústria, os processos e modelos comerciais). O sentido da ação ecológica, ou da “cidadania ecológica”, como lhe chama o Papa Francisco, passa por múltiplas atividades humanas, tornando-se indispensável definir e orientar a respetiva competência e missão.

Importa agora também propormos um papel da Igreja. Vemos que em Portugal a Igreja é falada apenas em função dos aspectos negativos. As suas propostas construtivas são ignoradas pela comunicação social e por muita mentalidade comum. Porém, o espírito evangélico poderia ser um cimento da unidade na sociedade. O projeto cristão constitui um caminho salvífico para o universo social: “A conversão ecológica, que se requer para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária”, afirma Francisco.

Esta ideia que o Papa Francisco tantas vezes tem repetido constitui uma das grandes novidades da sua intervenção: estar atento às realidades e aos processos sociais e culturais do mundo de hoje e verter neles a sabedoria do EVANGELHO. Foi sempre esse um caminho proposto pelos documentos sociais da doutrina da Igreja, mas corre-se o risco de se situar apenas no domínio dos princípios gerais e esquecer a aplicação na prática concreta.

Importa fomentar uma maior capacidade de proclamar e anunciar, através de modelos de comunicação que respondam à desatenção dos dias de hoje. Anunciar caminhos a seguir: proclamação e exemplo!

Nos  nossos dias, é indispensável associar várias dimensões da realidade: a dimensão histórica, as nossas raízes culturais, as forças de construção da identidade nacional. A esta é indispensável hoje associar a dimensão universalista. A presença dos portugueses no mundo deve ser estímulo para uma abertura ao global: o ser nacionalista hoje é esta capacidade de traduzirmos entre nós um sentido dinâmico de universalidade: somos cidadãos da Europa, por localização geográfica, mas devemos ser cidadãos do mundo pelo sentido universal da cidadania humana. É esse o significado último da visão humanista de Jesus Cristo que propôs o “Ide por todo o mundo”. É este “Todo o mundo” para o qual importa “anunciar a boa nova”: da convivência humana, do espírito fraterno, dos valores democráticos, da colaboração construtiva, do entendimento, em suma de uma humanidade a que continua ser essencial o anúncio bíblico Justiça.