Recordando o Cónego António Marques

Publicamos testemunhos dos Cónegos Jorge Cunha e Arnaldo Pinho. 

Faleceu em 21 de abril de 2021 o Cónego Doutor António Augusto de Sousa Marques. Nascido a 31 de maio de 1924, na paróquia de Riba Tâmega (Marco de Canaveses), completaria brevemente 97 anos. Ordenado em 27 de março de 1948, era o sacerdote mais antigo da Diocese, e dedicou quase toda a sua vida à tarefa de educador nos Seminários do Porto.

Após a formação em Filosofia, foi professor dessa disciplina nos anos do ensino secundário, no Seminário de Vilar, assumindo depois a missão de vice-Reitor desse seminário diocesano e depois seu Reitor, cargo que manteve até ao fim, associando o de Reitor do Seminário do Bom Pastor. Além de membro do cabido Portucalense, desempenhou também a missão de juiz do Tribunal Eclesiástico.

Nos últimos anos residiu na Casa Diocesana de Vilar, e depois na Casa Sacerdotal, onde concluiu o seu percurso de vida, tendo falecido em resultados de enfermidade do foro oncológico. Foi formador de largas gerações de sacerdotes e seminaristas ao longo de seis dezenas de anos. Homem de sentido autoritário, sabia aliar a rigidez da disciplina a uma certa atitude de condescendência, marcada pelo espírito sacerdotal.

Como professor de Filosofia, seguia o modelo da Filosofia escolástica e dos seus mestres mais notáveis (a Filosofia tomista), como era característico da sua formação e da sua opção. Mas quem escutou as suas lições notava a abertura às dimensões dos novos caminhos do pensamento, aos filósofos e aos pensadores das correntes do século, às escolas filosóficas e aos filósofos modernos. Foi depois professor também quer na Escola Superior de Teologia (na Casa da Torre da Marca), quer mais tarde na Faculdade de Teologia da Universidade Católica.

O seu funeral realizou-se na Sé do Porto, presidido pelo Bispo D. Manuel Linda, com a presença dos Bispos e de dezenas de sacerdotes, indo a sepultar em Santo Isidoro (Marco de Canaveses). D. Manuel Linda reconheceu com agradecimento a sua ação pastoral na Diocese do Porto.

 

Um Educador, um Amigo, um Homem livre

Por Cónego Arnaldo Pinho

Conheci o Dr. Marques, assim o chamávamos, quando cheguei ao Seminário de Vilar onde era Vice-Reitor, já lá vão sessenta e alguns anos. Eu teria os meus 14 anos, ele os seus 35. Recordo-me do seu perfil, numa idade em que tudo se observa: franzino, de poucas palavras, aparecia, no recreio, ou no salão de estudo e não precisava de falar; impunha respeito, ordem e disciplina. Dois anos mais tarde, foi meu professor de Filosofia. Era bom aluno. E respeitava o professor. Fui, mais tarde, seu colega no Seminário de Vilar, mas por pouco tempo. Mais tarde ainda, na Universidade Católica e na Direcção do Cabido da Sé do Porto.

Como Educador, chamou-me três vezes ao seu gabinete, já no tempo dos estudos de Filosofia. Recordo o que me disse: que não brincasse com os meus dotes. Ficamos amigos para sempre. A ponto de poder dizer que foi dos dois ou três educadores que tive na minha vida, além da minha família.

Continuei a reparar nele ao longo da vida. A lição dos Mestres, no dizer de Steiner, é que não precisam de o parecer. Filho de educadores, irmão e tio de educadores, era naturalmente um educador nato.

Seguiu o seu caminho com grande liberdade interior, como um homem de estilo clássico, aliando razão e fé, sentimento e lealdade, promessa e fidelidade, bom humor e seriedade. Não pertencia a círculos menores, fossem eles espirituais. Alimentava-se do clássico, isto é, o carácter como fundamento e o resto como prolongamento, segundo o velho princípio de que a graça supõe a natureza. Mas tudo isso sem afetação, sem arranjos florais.

Quando se tratou da vinda de D. António Ferreira Gomes para a Diocese, fez parte, com Mons. Santos, Cón. António Santos e P. Brito (Nevogilde), dos padres eleitos, para negociar com a Nunciatura. O Clero estimava-o muito. E quando se tratava de serviços electivos, escolhia-o. Porque era um justo. Uma vez, quando era Director da Faculdade de Teologia, observei-lhe que as notas que dava, na primeira chamada, raramente iam acima de oito. Logo me respondeu: mas ninguém se queixa que sou injusto. Pois não. Era, de facto, um homem livre e fiel a Cristo.

 

A liberdade em estreita regra

Por Cónego Jorge Teixeira da Cunha

A longa vida do Cónego António Augusto de Sousa Marques foi vivida ao serviço da formação do clero. Em nome de tantos que lhe estão gratos, aqui se deixam estas palavras na hora da sua partida deste mundo.

São conhecidos os versos que Sophia de Mello Breyner escreveu em memória de outro sacerdote que viveu para a educação, o P. Manuel Antunes, de quem disse que viveu “tão vasta liberdade em tão estreita /Regra”. Algo semelhante se pode dizer com justeza e justiça do nosso Reitor de Vilar.

Todos lhe reconhecem as qualidades de pedagogo lúcido, atento, crente.

Os que o conhecemos como professor de filosofia, sabemos como se fazia respeitar, mesmo sendo um homem exigente, que reprovava e que dava más notas. Havia nele uma empatia que se sobrepunha à exigência. Nos dias conturbados dos anos da revolução de Abril, quando outros tinham dificuldade em manter ordem nos alunos, o Cónego Marques tinha uma forma de presença naturalmente respeitada, aberta ao diálogo, sem degenerar em cedências de espírito débil. Gostava de uma boa tertúlia filosófica, orientava leituras de autores de moda, em ordem a revelar-lhes a fragilidade da argumentação.

Muitos nos lembramos de como confiava em nós, mesmo certamente com as apreensões de quem sabia que os riscos das suas opções. Sabia identificar as qualidades e dificuldades de cada um dos seus alunos de todas as gerações. Para cada um tinha um momento de atenção, com as conhecidas palavras: “É impressão minha, ou tu andas triste?” Muitas vezes, bastava esse momento de atenção para elevar a moral dos adolescentes que todos fomos.

Pela vida fora, sempre acompanhava os que conheceu na juventude. Quantos fomos encontrados debaixo das magnólias da Praça da Liberdade e convidados a acompanhá-lo ao seu lanche no Café Imperial. E quantas vezes esse ser puxado pelo braço foi uma forma de apoio espiritual.

A discrição da vida sacerdotal do Cónego Sousa Marques era uma forma de ascese. Uma verticalidade de todas as horas, uma honradez que fica como lição para quantos o conheceram.