Editorial: Em dias de caminhada Pascal

A Páscoa deste ano será uma “Páscoa sofrida”, como lembrava Jorge Cunha no editorial do último número. A Páscoa de Cristo foi também uma Páscoa sofrida, ocorrida no contexto da celebração da Páscoa judaica. Tal como Ele atualizou o sentido da Páscoa da tradição do povo hebreu, também hoje temos a obrigação de continuar a dar à celebração da Páscoa esse sentido de novidade que ela encerra nos seus acontecimentos fundadores.

Por M. Correia Fernandes

Nos textos litúrgicos do tempo que precede a Páscoa, éramos e somos convidados  a refletir sobre o Evangelho de São João, particularmente no conjunto de meditações de com que Jesus procurava transmitir aos mentores da tradição judaica a grande novidade que anunciava: Ele veio não para condenar o mundo, mas para lhe trazer a salvação. O quarto evangelho possui um sentido particular da historicidade, como recorda uma análise definitiva de Joseph Ratzinger (Bento XVI) na obra fundamental “Jesus de Nazaré”, cuja leitura se aconselha através da edição A Esfera dos Livros de 2008, já que a riqueza das ilustrações nos introduz também no universo das múltiplas expressões artísticas com que alguns dos maiores pintores da história humana procuraram interpretar o texto evangélico; como os clássicos Fra Angelico, Giotto, Caravaggio, Miguel Ângelo, Leonardo da Vinci, Raphael, Rembrandt, Bellini, Tintoretto, El Greco (séc. XIV-XVII), ou os mais modernos como Millet, Gauguin, Chagall, Rouaut (séc. XIX-XX), em obras que se encontram espalhadas pelos museus de todo o mundo. No dizer do Prefácio a esta edição, assinada pelo Cardeal Gianfranco Ravasi, citando Marc Chagall, lembra que “durante séculos os artistas molharam o seu pincel naquele alfabeto colorido pela fé e pela beleza, que é a Bíblia”. Esta não é apenas uma leitura bem preciosa para o espírito, pela aproximação fundada à realidade histórica e ao mistério salvífico de Jesus, mas igualmente uma oportunidade de fruir a beleza da arte e da sua capacidade de interpretação do mistério.

Costuma contrapor-se o teor do Evangelho de S. João aos outros três Evangelhos ditos Sinópticos, mesmo lembrando que os acontecimentos centrais são narrados nos quatro evangelistas, tais como o Batismo, a multiplicação dos pães, a Ceia Pascal e as narrativas da Paixão e da Ressurreição. Ratzinger mostra como a narrativa de João se baseia “sobre conhecimentos extraordinariamente precisos dos lugares e dos tempos e, por conseguinte, só pode ser obra de alguém que tenha grande familiaridade com a Palestina do tempo de Jesus”, e com a participação nos acontecimento narrados e interpretados. Afirma ainda que “por detrás do texto há, em última instância, uma testemunha ocupar, e a própria redação do mesmo teve lugar concretamente no círculo vivo dos seus discípulos”.

A narrativa da Paixão que é liturgicamente proclamada na Sexta Feira da Paixão constitui um bom exemplo desta interação entre a narrativa mais “histórica” dos outros evangelhos e a vivência mais pessoal do texto joanino. Neste evangelho encontramos um “tipo particular de historicidade”, ao encontro dos “conteúdos decisivos desta mensagem e, nela, a figura autêntica da Jesus”, em que “a recordação pessoal e a realidade histórica estão juntas”.

Trata-se assim de uma recordação do discípulo e da vivência do ‘nós’ comunitário da Igreja.

É pois nesta dinâmica que importa fazermos a leitura da narrativa da Paixão do quarto evangelho. E essa leitura deve também levar-nos a construir uma leitura evangélica dos tempos de hoje.

É a busca da Verdade que está presente: “procurareis a verdade e a Verdade vos libertará”. “Quendo vier o Espírito da Verdade, Ele guiar-vos-á para a Verdade Total.

É no Evangelho de João que, falando de si, Jesus diz: “quem é da Verdade escuta a minha voz”. Curiosamente ficou a pergunta do Governador: “O que é a Verdade?”. Boa pergunta não respondida, porque a Verdade não é para ser definida, mas para ser procurada. Registemos ainda que a centralidade do tema da Páscoa se encontra logo no início do evangelho, ao narrar a primeira Páscoa dos judeus em que Jesus participou e o tema da cruz e da ressurreição (cap.2).

Vemos assim como o mistério da Páscoa constitui o polo acolhedor de toda a narrativa joanina. É da Páscoa que nasce a Vida. Celebrar  a Páscoa é por isso um apelo à Vida Nova do mundo que o projeto salvador inaugurou e que a humanidade, entre avanços e recuos, entre empenhamentos e desalentos, entre edificação e destruição, vai procurando construir. Qual é neste universo a tarefa dos cristãos, do Povo de Deus?