Da Moral à Liturgia: “Destruí este templo…”

Foto: João Lopes Cardoso

Por Secretariado Diocesano da Liturgia

De três em três anos (no ano B do Leccionário), a liturgia da Palavra do 3º Domingo da Quaresma brinda-nos com o relato evangélico da «expulsão dos vendilhões» e do «sinal do Templo» (Jo 2, 13-25). Com demasiada frequência, assiste-se a uma leitura moralista que apouca o sinal profético de Jesus e não nos deixa ver que se está perante um claro anúncio do mistério pascal de Cristo: «destruí este Templo e em três dias o levantarei».

Não: Jesus não estava particularmente preocupado com a ganância dos cambistas e «feirantes de gado» que apinhavam o grande átrio dos gentios, esse patamar que rodeava o templo e em que os israelitas piedosos, depois de cambiar por didracmas os denários romanos que traziam nas algibeiras (mas não podiam circular no Templo por terem a efígie de César), adquiriam os animais a sacrificar no santuário para o cumprimento das suas obrigações religiosas, incluindo a ceia pascal. Até porque, seguramente, não faltariam vendedores e cambistas honestos. Não eram, propriamente, «vendilhões».

O objetivo da atuação veemente, aparentemente violenta – na realidade «profética» –, de Jesus não era «moralizar o comércio», absolutamente indispensável para a própria prática religiosa; e nem mesmo separá-lo, distanciá-lo do exercício do culto. Jesus ia muito mais longe: questionava o próprio culto em pilares fundamentais como eram a prática dos sacrifícios com vítimas animais e a própria celebração pascal com a ceia memorial em que se comia em família o cordeiro previamente imolado no Templo. Lembremos apenas que estava próxima a Páscoa judaica e que, por essa altura, Jerusalém se apinhava com centenas de milhar de famílias de peregrinos. E cada família precisava de adquirir um cordeiro para a sua ceia pascal: centenas de milhares de cordeiros a adquirir e a imolar! E alguém tinha de os vender…

Não era, por isso, uma questão de moral: era uma questão de religião, de culto, de Liturgia! Para o Nazareno, o Templo construído por mãos humanas, aquela grandiosa estrutura que há 46 anos andava em obras de ampliação e melhoramento, tinha caducado na sua principal função. Isso mesmo o declarará à Samaritana: nem em Jerusalém, nem em Garizim (Jo 4, 21)… Com o seu gesto Jesus tornava impossível – e, assim, declarava caducada – a oferenda de sacrifícios e a celebração da «páscoa dos judeus». Os verdadeiros adoradores teriam de abraçar uma «religião» diferente: «em espírito e verdade» (cf. Jo 4, 24).

O essencial do Evangelho do 3º Domingo da Quaresma (ano B) é, portanto, o anúncio da Paixão, morte e ressurreição de Jesus. Estando próxima «a Páscoa, a festa dos judeus», Jesus preanuncia a Sua Páscoa, a Páscoa das Páscoas em que seria imolado o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, quando «os judeus» – os responsáveis políticos e religiosos do Povo a que Jesus pertencia – aniquilariam o seu Corpo, o Templo verdadeiro e definitivo onde Deus e o Homem se encontram, entregando-o aos romanos para que lhe dessem a morte.

Lembremos que nos relatos dos sinópticos, no processo movido contra Jesus perante o Sinédrio, apareceram testemunhas a declarar que Jesus teria ameaçado destruir o Templo (de Jerusalém) para o reconstruir em 3 dias (cf. Mc 14, 58; Mt 26, 61; cf. At 6, 14)…  Parece ser essa, afinal, a grande acusação contra Jesus. O crime de blasfémia será apenas pretexto para o condenar. E as autoridades religiosas judaicas tinham razões de peso para agir assim. Porque Jesus punha em causa aquela que era, por então, a razão de ser do Templo de Jerusalém e de toda a vida religiosa que girava em seu redor, com os seus inumeráveis sacrifícios de cordeiros, cabritos, novilhos, pombas e rolas, com as suas libações de azeite e vinho. Era o seu próprio estatuto que ruía. Parecia-lhes inevitável eliminar fisicamente Cristo – o novo Templo – para salvaguardar o antigo; assegurar a perpetuação dos sacrifícios materiais que constituíam a essência da religião tal como a conheciam e de que viviam, à custa da liquidação daquele profeta incómodo, ignaros de que a sua morte seria, afinal, o único verdadeiro e definitivo Sacrifício que tornaria vãos e caducos todos os outros.

Mas ao terceiro dia, o Templo novo reergueu-se! E com Ele uma nova Liturgia, um novo culto, em Espírito e Verdade, em que a celebração memorial do Sacrifício único e definitivo da redenção humana é a Ceia do Senhor, a Páscoa da Igreja.