Domingo V da Quaresma

Foto: Diocese de Bragança-Miranda

21 de Março de 2021

 

Indicação das leituras

Leitura do Livro de Jeremias                                                                              Jer 31,31-34

«Dias virão, diz o Senhor, em que estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma aliança nova».

 

Salmo Responsorial                                            Salmo 50 (51)

Dai-me, Senhor, um coração puro.

 

Leitura da Epístola aos Hebreus                                                                         Hebr 5,7-9

«Apesar de ser Filho, aprendeu a obediência no sofrimento e, tendo atingido a sua plenitude, tornou-Se para todos os que Lhe obedecem causa de salvação eterna».

 

Aclamação ao Evangelho                       Jo 12,26

Se alguém Me quiser servir, que Me siga, diz o Senhor,

e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo.

 

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João                            Jo 12,20-33

«Senhor, nós queríamos ver Jesus».

«Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto».

 

Viver a Palavra

A fama de Jesus estendia-se ao longe e ao largo e a notícia dos milagres, sinais e prodígios que realizava difundia-se por toda a região. Jesus não era mais um profeta que falava das coisas de Deus, mas na Sua pregação palavras e gestos, intimamente ligados entre si, falavam de Deus e irrompiam no tempo e na história revestidos de uma novidade que a todos desconcertava. Deste modo, não nos surpreende que as multidões acorram a Jesus e que de toda a parte surjam homens e mulheres que querem ver com os seus próprios olhos tudo quanto se diz deste Jesus de Nazaré.

O Evangelho que escutamos neste quinto Domingo da Quaresma apresenta «alguns gregos» que tendo vindo a Jerusalém se aproximam de Filipe para lhe fazer um pedido: «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Analisando o grego em que este texto foi escrito, encontramos o verbo ideîn (ver) que é muito mais que um ver físico e curioso mas a procura da verdadeira identidade de Jesus. Estes homens não querem apenas ver Jesus, mas sobretudo ver quem é Jesus. Este conhecimento está para lá de uma visão exterior ou de uma análise comportamental, porque implica uma relação de intimidade que permite ir para lá do que vêem os olhos e do que ouvem os ouvidos, para entrar no conhecimento íntimo e pessoal Daquele que veio para revelar o rosto misericordioso do Pai.

É curioso o modo como o desejo daqueles gregos chega a Jesus: vão ter com Filipe, Filipe vai ter com André e os dois juntos vão ter com Jesus. É a dinâmica eclesial do encontro com Jesus Cristo. Os discípulos que seguem e acompanham Jesus são interpelados por aqueles que O procuram e estes, por sua vez, procuram que aconteça o verdadeiro encontro com Jesus. Filipe poderia fazer uma breve apresentação de Jesus, falar-lhes daquilo que o Mestre diz e faz, comunicando a mensagem que Ele veio trazer. Contudo, Filipe opera de modo diverso. Em primeiro lugar, não age sozinho, pois a resposta à pergunta e ao pedido «quem é Jesus?» não se responde isoladamente, cada um por si, mas em comunhão e comunidade. Filipe e André, que levam a Jesus os pedidos daqueles homens, são figura da Igreja, chamada a viver e a caminhar na unidade e na comunhão, levando a Jesus os pedidos e intenções da humanidade inteira e fazendo presente no tempo e na história o rosto misericordioso de Jesus Cristo que revela o amor e a ternura do Pai.

Jesus poderia limitar-se a uma apresentação sumária da sua biografia ou a um belo discurso sobre a sua missão. Contudo, Jesus escolhe fazer a revelação da Sua mais plena e verdadeira identidade: o grão de trigo lançado à terra e o crucificado elevado da terra que atrairá todos a si. Jesus não pretende um conhecimento fugaz que faz acumular conhecimentos e informações, mas uma relação íntima e pessoal que transforma a vida e ensina um novo modo de relação dos homens e mulheres entre si e deles todos juntos com Deus.

Tantos séculos depois continuamos a dizer como os gregos «Senhor, nós queríamos ver Jesus». Queremos conhecer a Sua verdadeira identidade e entrar em relação com Ele. Conhecer alguém apenas por aquilo que dizem dela, ainda que possa ser um bom ponto de partida, é sempre insuficiente, pois conhecer implica relação, proximidade e encontro.

Encontramos a verdadeira identidade de Jesus numa vida feita grão de trigo lançada à terra que germina, cresce e dá fruto, pois a vida, quanto mais se dá, mais se recebe e quanto mais se entrega aos outros, mais se torna nossa e de Deus: a vida é verdadeiramente vida quando entregue sem medida.

 

Homiliário patrístico

Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (Séc. V)

Quantas mortes terá resgatado a morte de um só, que, se não morresse, seria como o grão de trigo que não frutifica? Recordais as suas palavras, quando se aproximava da paixão, isto é, quando se aproximava da nossa redenção: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, permanece só; mas se morrer, dá muito fruto.

Ele fez realmente na cruz um grande negócio. Aí foi aberta a bolsa do nosso preço: quando o seu lado foi aberto pela lança do algoz, dele saiu o preço de todo o mundo. Foram resgatados os fiéis e os mártires; mas a fé dos mártires foi comprovada; o testemunho é o sangue derramado. Retribuíram o que tinha sido pago em seu favor, cumprindo o que diz São João: Assim como Cristo deu a sua vida por nós, assim também nós devemos dar a vida pelos irmãos. E noutro lugar diz: Se te sentas a uma grande mesa, repara com atenção no que te servem, porque também tu deves preparar coisa igual. Grande mesa é aquela em que os manjares são o próprio senhor da mesa! Ninguém se dá a si mesmo aos convivas em alimento; isto fá-lo Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele é quem convida, Ele é o alimento e a bebida. Os mártires reconheceram o que comeram e beberam, para retribuírem coisa igual. Mas com que retribuiriam, se Aquele que foi o primeiro a pagar não lhes desse com que retribuir? Por isso, o salmo onde está escrito o que cantámos – É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus fiéis – que nos recomenda ele? Considerou o salmista quanto recebeu de Deus; ponderou os numerosos benefícios da graça do Omnipotente que o criou, que o procurou estando perdido, que lhe perdoou tendo-o encontrado, que o ajudou quando lutava com poucas forças, que não se afastou dele quando estava em perigo, que o coroou quando venceu, que Se lhe deu a Si mesmo como prémio. Considerou tudo isto e exclamou dizendo: Que retribuirei ao Senhor por tudo quanto me concedeu? Tomarei o cálice da salvação.

 

Indicações litúrgico-pastorais

  1. No itinerário quaresmal, já às portas da Semana Santa, surge a Solenidade da Anunciação do Senhor, a 25 de Março, recordando a unidade entre o mistério da encarnação e o mistério da redenção. Nove meses antes do Natal, a Igreja celebra a incarnação do Verbo no seio de Maria. Tendo em conta que esta solenidade, muitas vezes, passa despercebida pelo Povo de Deus, cada comunidade cristã deve encontrar o modo de assinalar a celebração deste dia, sublinhando o amor que Deus tem por cada um de nós e a disponibilidade de Maria para que o acontecer de Deus se realize nela.

 

  1. Para os leitores: a primeira leitura não apresenta nenhuma dificuldade aparente na sua proclamação, contudo, deve ler-se com um tom alegre e feliz como quem anuncia uma bela e boa notícia. A brevidade da segunda leitura não deve fazer descurar a sua preparação. Apesar de breve, apresenta dois parágrafos com diversas orações, pelo que é essencial uma preparação das pausas e respirações do texto.

 

Sugestões de cânticos:

Entrada: Vinde, Senhor, vinde em meu auxílio – A. Cartageno (CN 1010); Salmo Responsorial: Dai-me, Senhor, um coração puro (Sl 50) – F. Santos (BML 45); Aclamação ao Evangelho: Louvor a Vós, Rei da eterna glória | Se alguém me quiser servir… – F. Santos (BML 45); Ofertório: Quando eu for levantado da terra – F. Santos (CN 829); Comunhão: Se o grão de trigo – F. Santos (CEC I 102); Pós-Comunhão: Eu Vos glorifico, Senhor – M. Luís (CN 467); Final: Tende compaixão de nós, Senhor – M. Luís (CN 553).