Um teólogo (des)embrulhado na (p)an(d)emia (7)

Foto: João Lopes Cardoso

Por Alexandre Freire Duarte

Um dos temas teológicos que considero mais desacreditado, sobretudo nos últimos segundos, é o do relevo das sobrancelhas para a vida cristã. Estou tão inquieto com isso, que me preparo para elaborar um detalhado e profuso estudo ilustrado sobre essa questão. Tão profuso e detalhado, que penso não ser capaz de o terminar antes de falecer.

Pela primeira vez na história, um flagelo golpeia sem clemência todo o Mundo ao mesmo tempo. Nunca isto tinha acontecido desde que os nossos primeiros pais (num tremendo desalinho que perdura até aos nossos dias) quiseram substituir-se a Deus no saberem (dizer) o que é o “bem” e o “mal” (cf. Gn. 2,9.16s; 3,1-6), e, depois, os seus babélicos filhos disseram a Deus «“Deixa-nos em paz”» (Job 22,16s). Surgiram daqui as “pessoas educadas” – todos nós –, mas só pobremente, pois raramente conhecedoras de um elusivo amor que só é autêntico e educável em estado de oferta.

O sofrimento custa? Imenso, sobretudo quando, felizmente (cf. Mt. 5,45), não vemos o Universo a pelejar pelos “justos” contra os “insensatos” (cf. Sb. 5,20; 1,17). A solidão custa? Talvez ainda mais, porquanto não é onde estamos chamados a viver, por mais que haja momentos em que seja humana e espiritualmente capital (cf. Lc. 5,16). Mas se custam tanto, quiçá seja por, não nos tendo sido ensinado o que é o amor, termos assimilado que cada vez que esbarramos contra algo, devemos retirá-lo da nossa vida. E isto, por mais que aquilo contra o qual chocamos possa ser a “parede” que apoia a nossa “casa”.

Seja como for, e apesar da força (às vezes sufocante) da dor que nos está a assolar e a isolar, não olvidemos que este vírus em forma de coroa está delimitado, no seu poder e alcance, pela coroa de espinhos que o Senhor do Amor deixou que Lhe colocássemos na cabeça (cf. Mc. 15,17). Uma coroa que, nas palavras do poeta norte-americano Richard Stoddard – mais tarde musicadas por Tchaikovsky –, Ele já não quisera que Lhe tirassem quando era criança: «“Colocas rosas no Teu cabelo?” / Gritaram, para Jesus, sem desvelo. / Com singelez o Menino disse: “Levem, imploro-vos, / Tudo menos os espinhos nus”».

Este novo confinamento forçado está a tirar, a muitos, aquele gaudio espiritual que, mesmo quando sitiado e assediado, logra glorificar ao Senhor. Todavia, este estado pode não ser irreversível. Vamos sempre a tempo de evitarmos um, ainda mais irrespirável, estado pandémico a nível espiritual, conquanto estimemos mais à humildade divinizável do que à riqueza empobrecedora; mais ao amor exigente do que à fama frívola; mais ao serviço gratuito do que ao endeusamento do “ego”; mais à bondade calorosa do que ao calculismo frio; e, sobretudo, mais ao Deus-Amor do que a tudo o mais.

Se, porém, não vivermos dessa forma, antes apenas franzirmos as sobrancelhas em jeito de indignação adâmica, tornar-nos-emos, como aconteceu há dias no “nosso” Parlamento, renitentes ao reconhecimento do valor desmedido que Deus comunica a todos nós (em todo o arco da nossa existência e em qualquer condição vital). Pior: (des)converter-nos-emos num atroz vácuo espiritual a sugar os demais, para, do apreço deles por nós, tentarmos obter uma pálida sombra daquele valor.

Face a tudo isto, já consumado e ainda susceptível de vir a sê-lo, não vejo como poderemos duvidar que foi com um humor insondável que Jesus, previamente a ser “zaragatoado” até ao coração, bradou ao Pai dizendo que eramos mais ignorantes do que brutos (cf. Lc. 23,34). Não sabemos o que fazemos? Não me parece… Mas se, por caso, isso for assim, sê-lo-á unicamente porque não queremos saber o que estamos a desfazer, merecendo que digam de nós o que Christina Rossetti referiu no seu poema “Sexta-Feira Santa”: «não sois uma ovelha, mas uma pedra».