Bem mais que um ‘dever cívico’…

Por João Alves Dias 

“Nec recisa recedit (Nem mesmo quebrado, retrocede)”. Este era o lema dum jovem que se tornou recordista mundial dos 200 metros planos e foi tema do filme “A Flecha do Sul” transmitido pela RTP2 (27/12/2020).

Era um menino pobre de Barletta, uma ignorada aldeia de pescadores do sul de Itália. Era tão pobre que nem podia frequentar o clube de atletismo da sua terra. A primeira vez que, por um buraco na rede, entrou na pista de atletismo, os meninos-bem que o frequentavam iam expulsá-lo não fora a intervenção do treinador que o pôs a correr com o mais rápido dos seus alunos. Com espanto, ele ganhou, mas pagou caro a sua ousadia. A mãe fechou-o em casa durante uma semana porque ele, na corrida, rompera os “sapatos que deveriam durar mais um ano” e os outros meninos, por desprezo, passaram a chamar-lhe “Pietro dos sapatos rotos”.

Ao longo da vida, foi marcado por pensamentos que nunca esqueceu. Do seu treinador, ouviu: “Quanto maiores são os sonhos, mais temos de trabalhar” e “Nas estafetas da vida, os testemunhos são os sentimentos”. Sua mãe dissera-lhe: “Jesus disse que os últimos são os primeiros. E se Jesus disse…”.

Animava-o uma vontade férrea e uma esperança inquebrantável de vencer.

Por coincidência, nesse mesmo dia, foram notícia as palavras do Dr. António Sarmento, diretor do Serviço de Doenças Infeciosas, no Hospital de São João, o primeiro português a receber a vacina contra o Covid-19: “Estou confiante e com esperança”.

Foi bom ouvir palavras de confiança da parte de um especialista que honra a Associação dos Médicos Católicos, o seu hospital e a Universidade do Porto.

Quando a epidemia nos atemoriza, gostaria de reter as últimas palavras deste prestigiado médico católico, na entrevista que deu na RTP2 em 18 de janeiro:

“Mas há uma coisa que nós temos de preservar até ao fim que é a esperança. A esperança é a base da nossa capacidade de lutar. Não vamos perder a esperança, não vamos desistir. Não podemos cair no laxismo mas também não podemos cair no pânico que corta a esperança. E sem esperança não há trabalho, não há luta, não há perseverança”.

Face à ameaça do novo vírus, a humanidade não entrou em pânico. Cientistas, empresas farmacêuticas e governos deram-se as mãos e, em tempo recorde, ofereceram-nos a vacina da esperança. O SNS deu resposta a todas as necessidades, mas, agora, está numa situação-limite e seus trabalhadores em estado de exaustão..

E nós?

Para nós, cumprir, sem subterfúgios, as normas decretadas pelo Governo, para além de um ‘dever cívico’, é uma exigência do 5º «Mandamento da Lei de Deus» que ordena: “Não matar (nem causar outro dano, no corpo ou na alma, a si mesmo ou ao próximo)”. Se a salvação está no «ficar em casa», então fiquemos e só saiamos em casos imprescindíveis. Há que ‘travar a fundo’, sem desculpas nem obsessões.…mas com muitos cuidados.

Que a esperança nos ajude a cumprir a nossa obrigação por mais custosa que ela seja.

Como Pietro Mennea, a ‘flecha do sul’, que nos anime “uma vontade férrea e uma esperança inquebrantável de vencer”.