Mensagem (105): O centro

Um olhar rápido pela história da Igreja faz-nos ver que as grandes fraturas aconteceram ou em contexto de doutrina ou por motivos periféricos e circunstanciais. No primeiro caso, estiveram os terríveis erros teológicos conhecidos como gnose, maniqueísmo, docetismo, arianismo, nestorianismo, monofisismo, catarismo, etc. Todos desapareceram com o tempo. Filiam-se no segundo âmbito as nossas atuais divisões: a ortodoxia, o vasto mundo protestante que se seguiu à reforma de Lutero e o catolicismo.

Um dado é visível: no caso das falsas doutrinas, bastou a inteligência da fé, o sentido eclesial do povo de Deus e a iluminação do Espírito para reporem a verdade; em contrapartida, no que se refere às três grandes linhas do cristianismo atual, que não nasceram da pregação de «outra» teologia, mas da sobrevalorização de determinados aspetos socioculturais, a unidade não passa pelo aniquilamento de qualquer uma delas, mas pelo abeiramento ao núcleo fundante da fé que é o Deus de Jesus Cristo.

De facto, porque é que estes grandes ramos se separaram? Sem negar que, até certo ponto, também estavam em causa sensibilidades próprias na forma de perceber a doutrina, simplificando, poder-se-ia dizer que os motivos da divisão vamos encontra-los em elementos que, por mais respeitáveis que sejam, jamais poderão constituir o centro: tradições históricas e políticas, sentimentos sociais e artísticos, afeições de classe e mundanidade, predomínios geográficos e linguísticos, oscilações entre o peso da instituição e a liberdade da organização.

É verdade que a religião não consegue prescindir de qualquer um destes círculos. Mas o que não pode é fazer deles o centro, como se aí residisse a vida nova comunicada pelo Espírito do Ressuscitado. O que traz uma consequência tão simples como fundamental: só nos uniremos na medida em que relativizemos o setorial e nos centremos no essencial. E este chama-se… Jesus Cristo.

A Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos aponta para aí, ao recentrar tudo nesta relação fundante do crente e das Igrejas com o seu Senhor. E abre a nossa mente para entender que o ecumenismo não é uma tática de mera pacificação de forças rivais, mas sim o encontro n’Aquele que nos apela constantemente: “Permanecei no meu amor” (Jo, 15, 9).

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