Será em 2021 o princípio do fim da pandemia

O especialista em Genética e Imunologia, José Manuel Cabeda, recorda que a etapa da vacinação agora iniciada será longa, alerta para a desigualdade entre países ricos e países pobres e afirma que vacinar é um dever ético.

Por Rui Saraiva

“Luzes de esperança” – foi com esta expressão que o Papa Francisco se referiu às vacinas na sua Mensagem e Bênção Urbi et Orbi, na manhã de Natal. “Hoje, neste tempo de escuridão e incertezas pela pandemia, aparecem várias luzes de esperança, como a descoberta das vacinas” – assinalou o Papa. O Santo Padre lançou o apelo de que as vacinas devem estar ao dispor de todos e que esta nova etapa deve ser vivida num clima de cooperação e não de concorrência.

Entretanto a vacinação já começou na Europa. Também em Portugal. O dia 27 de dezembro foi o primeiro. Fomos tentar compreender melhor todo este processo de vacinação: Quais os riscos e as incertezas da vacinação? O que esperar da vacinação a nível mundial no ano 2021?

Uma etapa longa de vacinação

O investigador José Manuel Cabeda, professor de Genética e Imunologia na Universidade Fernando Pessoa no Porto, considera que com este processo de vacinação já estamos no princípio do fim da pandemia.

“Se 2020 ficará na história como o ano da pandemia, 2021 será conhecido como o ano do princípio do fim da pandemia. Mas é meramente o princípio. Esta etapa que agora começamos vai ser muito longa e desigual. Vai ser muito diferente o que se passa nos países ricos e o que se passará nos países com mais dificuldades. Os países ricos no final de 2020 asseguraram que teriam acesso já à quase totalidade do stock mundial da vacina. Mesmo esforços como o da ONU (Organização das Nações Unidas) por uma distribuição equitativa dos stocks de vacinas pelo mundo, tiveram muito pouca eficácia. Ainda que os países ricos sejam financiadores dessa iniciativa, de facto, vai ficar a faltar muitas vacinas na maior parte dos países. E esse é um problema que se vai prolongar por todo o ano de 2021 e, eventualmente, para além de 2021. Contudo, há esperança porque novas vacinas vão entrar na equação algumas delas com a vantagem de serem bastante mais económicas do que aquelas que agora temos disponíveis. Por isso, 2021 será o início do fim, mas apenas o início. E o início de um fim de um trajeto que tem ainda muitos caminhos” – assinalou.

O dever ético de vacinar

Para o investigador não devemos ter dúvidas em participar nesta campanha, pois vacinar é um dever ético.

“É um dever ético de todos nós participar nesta campanha de vacinação. Ao participar na vacinação não estamos apenas a protegermo-nos a nós próprios, estamos a proteger os outros também. E lembrem-se: não vacinar é que é um risco. E não querer participar na campanha de vacinação é um risco pessoal e um risco que assumimos para os outros” – declarou.

Todas as vacinas têm riscos, mas não vacinar é um risco gigantesco – considera o professor de Imunologia.

“Neste momento todas as vacinas comportam riscos que são considerados aceitáveis porque o risco de não as utilizar é maior do que o risco de utilizar. Reparem qual é a consequência de não vacinar: neste ano em que não pudemos vacinar conseguimos produzir a infeliz cifra de 75 milhões de pessoas infetadas no mundo e mais de 1 milhão e meio de mortos. Portanto, não vacinar é um risco gigantesco” – salientou.

Não há perigosidade nas vacinas aprovadas

O professor universitário assinala, contudo, que existe o risco real de não ser possível vacinar o número de pessoas suficiente.

“Será que a população que vamos conseguir vacinar vai ser insuficiente? Esse é um risco real, se nós não conseguirmos vacinar um número suficiente de pessoas. E o que vai acontecer é que as pessoas não vacinadas não ficarão protegidas. Enquanto que se esse número for suficiente gera-se o efeito de proteção de grupo que acaba por proteger mesmo as pessoas que ou não foram vacinadas ou que tendo sido vacinadas não reagiram à vacina e por isso não ficaram protegidas. Mas, ficarão protegidas pela quebra da transmissão” – frisou.

Para José Manuel Cabeda as campanhas contra a vacinação são baseadas em dados cientificamente falseados e, portanto, afirma que não há perigosidade nas vacinas que já estão aprovadas.

“Os dados objetivos de que dispomos não revelam qualquer tipo de perigosidade nas vacinas que estão aprovadas. Mesmo se as vacinas são de um tipo novo que nunca antes tinha sido utilizado e mesmo que vão ser utilizadas a uma escala absolutamente inédita, o que se passa é que conceptualmente do ponto de vista científico estas são vacinas extremamente seguras. É preciso ter a consciência de que a quase totalidade das campanhas contra a vacinação são baseadas em dados cientificamente falseados. Estamos a falar de artigos científicos que apesar de terem sido publicados foram retratados e retirados pelas próprias revistas porque se revelaram falsos. Este tipo de campanhas tem produzido apenas uma coisa: um imenso sofrimento nas pessoas que acabam por ser vítimas e que acabam por ter doenças gravíssimas que poderiam ser perfeitamente evitadas e que acabam por levar a sequelas gravíssimas ou até mesmo à morte”.

José Manuel Cabeda é doutorado em Ciências Biomédicas e licenciado em Bioquímica pela Universidade do Porto. É professor coordenador na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, lecionando em áreas como a Bioteconologia Médica, Bioinformática e também Diagnóstico e Terapias de Base Genética. Já publicou dezenas de artigos em revistas especializadas. No seu currículo Ciência Vitae os dois termos mais frequentes na contextualização da sua produção científica são infeção e epidemiologia.