“Analfabetos em bondade”

Por João Alves Dias

“Que nenhuma «pandemia da alma» nos seja impedimento para acolher Jesus”, dizia a mensagem natalícia que recebi da Associação Católica do Porto.

Com estes votos, partilho convosco algumas reflexões suscitadas pelo filme «Luísa Spagnoli», transmitido pela RTP2 nas vésperas de Natal. Na sua intriga, mereceu-me especial atenção o simbolismo da ária de “O Barbeiro de Sevilha” onde Don Basílio canta:

“ A calúnia é uma brisa, uma aragem assaz suave que, insensível, subtil, ligeiramente, docemente, começa a sussurrar lenta, lentamente, passo a passo, em voz baixa. Sibilando vai correndo, vai zumbindo nos ouvidos da gente. As cabeças e os cérebros atordoa e faz inchar. Boca fora vai saindo, o alarido vai crescendo, ganha força pouco a pouco, vai já de um lado para o outro. Parece trovão, tempestade que no seio da floresta vai silvando. No fim, extravasa e rebenta, propaga-se e duplica-se. E produz uma explosão, um temporal, um tumulto geral.”

E recordei o conselho de Sócrates que viveu cerca de 500 anos antes de Jesus.

“Certo dia, um conhecido aproximou-se dele e disse:

– Sabes o que eu acabei de ouvir acerca daquele teu amigo? – Espera um minuto, respondeu Sócrates. Antes que me digas alguma coisa, gostaria de te fazer o teste do triplo filtro. – Triplo filtro? – Sim, continuou. Antes que me fales do meu amigo, talvez fosse boa ideia parar um momento e filtrar aquilo que vais dizer. E prosseguiu:

– O primeiro filtro é a verdade. Tens a certeza absoluta de que aquilo que me vais dizer é perfeitamente verdadeiro? – Não, disse o homem. O que acontece é que ouvi dizer…

– Então, não sabes se é verdade. Passemos ao segundo filtro que é a bondade. O que me vais dizer sobre o meu amigo é bom? – Não, muito pelo contrário…

– Então, continuou, queres dizer-me algo de mau sobre ele e ainda por cima nem sabes se é ou não verdadeiro. Mas, bem, pode ser que ainda passes no terceiro filtro. O último filtro é a utilidade. O que me vais dizer sobre o meu amigo será útil para mim? – Não, acho que não…- Bem, concluiu o filósofo, se o que me dirás não é bom, nem útil e muito menos verdadeiro, para quê dizer-me?”

E também lembrei uma parábola

“Um dia, os professores deram a cada aluno um balão para encher, escrever nele o seu nome e, depois, colocar no chão. De seguida, misturaram todos os balões e deram-lhes cinco minutos para que todos encontrassem o seu próprio balão. Apesar da busca frenética, ninguém o encontrou. Então, disseram-lhes que pegassem no primeiro balão que encontrassem e o entregassem ao colega cujo nome estava escrito. Em 5 minutos, todos tinham o seu próprio balão.

– Esses balões, disseram os professores, são como a felicidade. Nunca a encontraremos se todos andarem à procura da sua. Mas, se nos preocuparmos com a felicidade dos outros, encontraremos também a nossa.”

Se assim procedermos, não seremos “analfabetos em bondade” e estaremos a construir “não uma fraternidade feita de palavras bonitas mas uma fraternidade baseado no amor real”, como desejou o papa Francisco na Missa do Galo e na Mensagem de Natal.