Eduardo Lourenço: Literatura e Filosofia

Por M. Correia Fernandes

Um “poeta do pensamento”, Lídia Jorge sobre Eduardo Lourenço.

Lembramos no texto publicado no número anterior, que em 17 de setembro de 2019, Voz Portucalense dava conta de uma sessão de homenagem a Eduardo Lourenço em que estava prevista mas não foi possível a sua presença. No colóquio que lhe foi então dedicado, foi lembrada a sua obra, de “poeta do pensamento”, como na ocasião lhe chamou Lídia Jorge. Foi dado o seu nome a uma tília na alameda do Palácio de Cristal, recordando a sua ligação ao Porto.

Em 3 de abril de 2020 foi anunciada a atribuição do “Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes” a Eduardo Lourenço, que não chegou a ser entregue em razão do estado de emergência. Sobre o sentido deste prémio escrevemos na Voz Portucalense de 8 de abril de 2020, que o gesto do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, destacando  que “Eduardo Lourenço sustentou sempre, com desassombro e brilho, que a sua demanda de Conhecimento se queria coerente com o horizonte da “vivência mesma da Verdade”, valorizando o seu espírito situado no seio do humanismo cristão, constituía uma valorização do prémio em si mesmo, pelo prestígio de que gozava o premiado.

José Carlos Seabra Pereira, membro do júri que lhe atribuiu o Prémio “Árvore da Vida”, agora na ocasião da sua morte, escreve: “Despedimo-nos de Eduardo Lourenço, em nome do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura – que se orgulha de lhe haver atribuído, após voto unânime do respetivo Júri, o Prémio Árvore da Vida 2020. É-nos grato recordar, aliás, a admiração com que Eduardo Lourenço então evocou a figura do patrono desse Prémio, o emérito Padre Manuel Antunes, e assinalou algumas afinidades de espírito entre ambos”.

Linhas do seu pensamento

É esta dimensão de “poeta do pensamento” que queria aqui recordar, para além dos dados essenciais da sua biografia e da sua bibliografia recordada no escrito anterior e dos prémios atribuídos.

Numerosos (e pertinentes certamente) foram as referências exaltantes que mereceu por parte de governantes, políticos, pensadores e jornalistas ligados ao universo cultural. Seja-me permitido agora, tardiamente, lembrar algumas das dimensões em que se assinala o seu pensamento.

1.A relação entre a literatura e Filosofia. Aspeto essencial na sua investigação, desde cedo se tornou o seu centro de interesse ao estudar os autores, romancistas, poetas ou cronistas, como Vergílio Ferreira, cujo pensamento especialmente admirava.

Em 1983, a editora Sá da Costa revelava, em volume de 261 páginas, um conjunto de textos datados de Vence, na zona da Provença, em França, em cuja universidade então lecionava, e outros em Portugal, com o título revelador de “Poesia e Metafísica”, com subtítulo “Camões, Antero, Pessoa”. É revelador que associe estas três figuras da Literatura Portuguesa, de três épocas diferentes, mas com um comum denominador que aos três define: a presença do pensamento filosófico na literatura. Já Lourenço havia publicado o “Pessoa revisitado”, mas associar estres três autores manifestava a forma como Lourenço analisava a escrita: era central o descobrir das raízes do pensamento no percurso da criação poética. As quais em Camões encontra na busca da alma portuguesa, em Antero na presença do socialismo como utopia, e em Pessoa a interpretação da Realidade como ficção ou busca do infinito, ou do Ideal, ou da Verdade, traduzida num dos seus mais belos versos:

Buscar na linha fria do horizonte

A Árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –

Os beijos merecidos da Verdade.

  1. A presença e a atenção aos momentos importante e decisivos da nossa história. Esta dimensão está clara em muitos dos títulos das suas obras: O labirinto da saudade, O rei da nossa Baviera, Nós e a Europa, Portugal como destino, Mitologia da saudade, Nós como futuro. Este pensar a identidade portuguesa constitui o tema acolhedor de todo o seu percurso de leitura dos autores e dos livros, incluindo a nossa história recente, apesar de habitualmente residir no estrangeiro, mas fazia do ser “estrangeirado” uma plataforma de análise para melhor e mais fundamente conhecer os problemas, as realidades e os mistérios da existência. É isso que Tolentino de Mendonça traduziu bem, ao afirmar que a forma do caixão dele tem que ter a forma de Portugal.

3.A relação com a espiritualidade e a religiosidade. Este dado foi eloquentemente lembrado por José Tolentino: a ele devemos “a lição de interrogar, não só a vida mas também a morte, com sabedoria, distanciamento, serenidade e esperança, lutando para conter a história nos limites do humanamente aceitável, tarefa, como sabemos, trabalhosa e inacabada, mas também indeclinável, se quisermos que a civilização e o humanismo sejam mais do que uma abstração”. E lembrou a emoção com que tornava presente a figura de Jesus e as dimensões humanas da sua mensagem.

4.A relação entre literatura, poesia, criação estética, expressão artística, a leitura da centralidade da Europa e as forças centrípetas que a ela nos associam, e ao mesmo tempo a capacidade de transportar os ideais civilizacionais da Europa como modelo de cultura e convivência humana. Exemplifica-o em Camões, em que “a expressão do seu Catolicismo é não só de uma perfeita ortodoxia, como obsessivamente proclamada ao longo do poema, em que a essência desse Império se confundia com a expressão dessa Fé”. (Camões ou a nossa alma, 1980, em Poesia e Metafísica, 1983).

Há que encontrar esta dimensão da Arte e da Cultura na mais funda dimensão do pensamento de Eduardo Lourenço. É tarefa difícil, mas produtiva.

Para conhecimento da sua obra, estão disponíveis, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian as “Obras Completas de Eduardo Lourenço”.