Uma homenagem a Eduardo Lourenço

Foto: Público

Por M. Correia Fernandes

Estava prevista para o sábado 7 de setembro [de 2019]a presença do pensador, filósofo, ensaísta, homem de cultura sempre edificada, um leitor atento e partilhante do pensamento europeu e universal, Eduardo Lourenço (de Faria) na Feira do Livro do Porto. Por motivos de saúde (tem a bonita idade de 96 anos (n. 23 de maio de 1923), não pôde estar presente, o que não impediu a realização de um previsto colóquio com a presença de escritora Lídia Jorge e de Artur Santos Silva, que com ele partilhou tarefas na Fundação Calouste Gulbenkian, sob a moderação do jornalista Carlos Magno.

Aliou-se a emoção da ausência física à presença espiritual nas palavras de deslumbramento da escritora, algarvia, e de Artur Santos Silva, portuense, que traduziram a admiração dos participantes  pela figura de Eduardo Lourenço, ele também ligado ao Porto e a Coimbra, embora beirão de nascimento. Para além da homenagem espiritual traduzida no colóquio que lhe foi dedicado, foi homenageado pela Câmara Municipal do Porto com a atribuição do seu nome a uma tília na alameda do Palácio de Cristal onde figurará ao lado de outros escritores homenageados com este gesto: Vasco Graça-Moura, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen (já falecidos), Mário Cláudio e José Mário Branco, figuras viventes e ativas da cidade.

Na homenagem, o Presidente da Câmara considerou Eduardo Lourenço como “homem luminoso, alquimista da palavra, ‘indisciplinador’ “, ou “poeta do pensamento”, segundo Lídia Jorge.

Esta é uma boa oportunidade para recordarmos aqui a figura de Eduardo Lourenço, ao lado das que temos também lembrado nestas páginas, e por idênticas razões de valor e mérito. Presente numa feira de livros, é desejável que a sua figura seja fonte de inspiração para a sociedade e o pensamento português, para a modelação pelo alto da nossa mentalidades e do nosso espírito, telúrico e universalista, como é o do homenageado.

Eduardo Lourenço percorreu longos caminhos da vida e múltiplas paragens produtivas. Leitor de Português e professor em várias  Universidades europeias, procurou ler à distância a identidade portuguesa, os vectores do seu pensamento que procurava transmitir em suas lições.

A inspiração marcante e modelar da sua elaboração mental e ideológica terá sido a de Fernando Pessoa (1888-1935), a quem dedicou em 1973 o volume “Pessoa revisitado” e mais tarde “Fernando Rei da Nossa Baviera” (1986). Este “revisitar” Pessoa foi uma outra visão da obra múltipla deste poeta pensador que quis construir para a identidade portuguesa uma  nova dinâmica sonhadora, no universo do “Encoberto”. Em “O labirinto da saudade” procura E. Lourenço uma interpretação do sentido deste nosso sentimento universalizante. Esta obra deu origem a um documentário, realizado por Miguel Gonçalves Mendes (1918), em que intervém o próprio autor, com testemunhos de outros, que “percorre os corredores da sua memória e da história de Portugal”.

Uma obra sua também marcante foi  “Tempo e Poesia” (1974), na qual evidencia a capacidade da criação poética, a sua beleza e dinâmica, para revelar o mistério do Tempo, e portanto de nós mesmos, e o mistério da nossa humana condição. Há nestas páginas grande proximidades e inspiração nos conceitos e na escrita e na obra de outro grande pensador, Vergílio Ferreira (1916-1996), da sua reflexão sobre a “aparição”, as luzes dos dramas e das esperanças humanas, que os seus últimos livros (“Até ao fim” e “Para sempre”) particularmente evidenciam.

Há que lembrar de Eduardo Lourenço o reconhecimento do seu percurso, académico, de escritor  e de pensador, que denotam o prestígio que foi afirmando: O Prémio Camões (em 1996), o Prémio Pessoa  (2011), o doutoramento honoris causa pela Universidade de Bolonha (2007), o Prémio Vergílio Ferreira (um dos seus inspiradores (e 2001), os  Doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Coimbra (1996),Nova de Lisboa (1998), Rio de Janeiro (1995) e Medalha de Ouro da cidade de Coimbra, e mais recentemente o Prémio Vasco Graça Moura de Cidadania Cultural (2016). Recebeu várias condecorações em Portugal e em França, entre as quais a de Cavaleiro da Legião de Honra.

Para conhecimento da sua obra, estão disponíveis, em edição da Fundação Calouste Gulbenkian as “Obras Completas de Eduardo Lourenço”.

Num ensaio recente (“A França e nós: religião, religiões, laicidade”) escreve:  “O actual panorama de pluralismo religioso ou de potencial ecumenismo só foi e é possível pelo facto de a cultura europeia se ter tornado, ao longo de um processo milenário, uma cultura tendencialmente laica”. Dá que pensar. Pensemos, por isso.