A Torre de Babel

Por Ernesto Campos

A minha pátria é a língua portuguesa”

Fernando Pessoa, poeta séc. XIX-XX

 

  1. A narrativa bíblica refere-se a uma enorme torre, de que restam ainda ruínas, na antiga Babilónia. Seria um templo e um posto de observação dos astros. A esta finalidade utilitária, o texto do Antigo Testamento juntou uma roupagem mítica que, como é próprio dos mitos, anuncia e denuncia a virtudes e os vícios dos homens. No caso, ou é o propósito de oferecer a Deus um lugar elevado no meio da planície, já que é nos altos montes que Deus se manifesta, ou a torre de Babel significa, antes, o pecado do orgulho: a próspera cidade da Babilónia quis impor a uniformidade da sua cultura e da sua língua aos povos da região, como expressão de poderio e domínio: “façamos uma cidade para nós e tornemos célebre o nosso nome”. Deus põe fim a esta tentação de imperialismo e confunde-lhes as línguas, dispersando-os e criando a confusão. José Saramago, no seu livro Caim, dá a este mito uma interpretação bem menos edificante: com a sua intervenção, deus, cioso da sua omnipotência, instaurou o caos e a revolta entre os homens; de tal modo que “nem ele nos entende a nós nem nós o entendemos a ele”.

O propósito do texto bíblico é renovar o mandato divino primordial e fecundo “crescei e multiplicai-vos e enchei a terra”; na imaginação de Saramago, é a manifestação falhada de um deus em cuja existência o autor, aliás, não acredita. O piedoso mito de Babel transforma-se numa expressão impia de radicalidade destrutiva.

  1. Além da literatura, destruição radical é o que encontramos, também, em opções políticas partidárias cujos propósitos extremistas não passam da contemplação do próprio umbigo como centro do mundo.

A líder do partido Rassemblement National, Marine Le Pen, é contra o ensino da língua portuguesa no sistema de ensino francês; explica em entrevista à comunicação social que “o papel da educação nacional francesa é de fazer franceses os filhos dos imigrantes”, e não o contrário. Parece uma saudável política de integração, mas trata-se, na verdade, de um ato agressivo que não favorece o desejável interculturalismo que é o virtuoso corolário das migrações dos povos; . O  negativismo petulante de Marine Le Pen quanto às línguas no sistema de ensino francês é um atentado à identidade pessoal, porque uma língua é uma lógica e as culturas civilizam-se umas às outras.

Os portugueses em França não podem deixar de protestar contra este nacionalismo exacerbado e ofensivo. É expressivo o testemunho de quem se sente atingido. “Sendo Portugal um país de emigrantes, e sendo eu própria uma emigrante há vinte e oito anos, faz-me confusão que, no nosso país, haja quem apoie um partido que rejeita imigrantes. Ainda mais confusão me faz que haja portugueses, no estrangeiro, a apoiar nacionalistas como Marine Le Pen. Numa entrevista a Daniel Ribeiro (Expresso e Rádio Alfa) para SIC / Expresso, Marine Le Pen declarou ser contra o ensino da língua portuguesa aos filhos de imigrantes na educação nacional francesa”(delitodeopinião.blogs.sapo.pt/nacionalismos)

Se lhes pagássemos na mesma moeda seria um disparate, porque como dizia Johann Goethe “quem não conhece línguas estrangeiras, não conhece a sua própria língua”, mas o contrário também é verdadeiro, uma vez que quem esquece a própria língua deixa de se parecer consigo mesmo.