Importa “educar para a teologia do cinema”

Fotos: João Lopes Cardoso

Por M. Correia Fernandes (elaboração)  

Um texto do Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura, publicado no diário Avvenire (da Conferência Episcopal  Italiana), com este tema “Educar para a teologia do cinema”, publicado entre nós pela Pastoral da Cultura (Conferência Episcopal Portuguesa) em 16 de novembro deste ano, em tradução e edição de Jorge Martins, aborda esta temática a partir de uma inserção histórica, que conduz a um julgamento global sobre a forma como na história do cinema têm sido abordados os temas religiosos, bíblicos e de temática cristã, ao longo dos últimos 125 anos.

A pertinência e oportunidade desta reflexão de um dos mais notáveis membros do Colégio Cardinalício, e tida conta de que visitou Portugal e a diocese do Porto em 2016, presente na igreja de Santa Maria do Marco de Canaveses, onde pronunciou uma palestra propondo uma reflexão sobre a presença da Igreja no universo da cultura e da sociedade civil, segundo a proposta da “Igreja em saída”, e tida conta de que a Voz Portucalense tem publicado recentemente reflexões também sobre obras cinematográficas vista pela luz da reflexão teológica (nos textos de Alexandre Freire Duarte), sugeriu a pertinência da divulgação desta reflexão do Cardeal G. Ravasi, que disponibilizamos nestas páginas, com alguns acrescentos sobre filmes nacionais em que a temática religiosa é aflorada.

O texto de Gianfranco Ravasi

Era o ano 1895, e pela primeira vez os irmãos Louis-Jean e Auguste Lumière faziam correr algumas imagens em movimento, dando origem àquela que seria pomposamente denominada “sétima arte”, a cinematografia. Poucos sabem, no entanto, que alguns meses depois, a 26 de fevereiro de 1896, um operador, Vittorio Calcina, por conta dos irmãos Lumière, tinha obtido a autorização de passar os umbrais do palácio apostólico com o seu equipamento destinado a filmar o papa Leão XIII no ato de abençoar. Pouco tempo depois, um colaborador de Edison tinha podido gravar o mesmo idoso pontífice enquanto passeava nos jardins do Vaticano, em benefício dos fiéis americanos desejosos de ver o papa “em pessoa”. Em 1897, no branco lençol que então fazia de ecrã, passava a primeira transcrição em imagens em movimento de “A paixão”, de Albert K. Léhar, uma experiência que em 1899 repetirá um realizador mais conhecido, Georges Méliès, com o filme cristológico “Cristo andando sobre as águas”, a que se seguirá “Joana d’Arc”.

Desses momentos iniciais desenrolar-se-á um itinerário que atravessará todo o século XX e todas as nações do mundo, para chegar às incessantes produções fílmicas, às variações de género introduzidas pela televisão, às voragens dos abismos das perversões, das violências, da pornografia, mas também ao zénite de obras-primas de humanidade e espiritualidade, das exaltações das superproduções às criações digitais atuais, passando pela avalancha da retórica de certos filmes “bíblicos” e hagiográficos, bem como pela multiplicação dos festivais, e assim por diante.

Compreende-se que a Bíblia se tenha tornado um sujeito apetecível do cinema porque é, por sua natureza, «história da salvação», e, portanto, narração. É sugestivo um aforisma judaico que afirma: «Deus criou os homens porque Ele – bendito seja – ama as narrativas».

A matriz do cinema liga-se, substancialmente, a duas categorias fundamentais também na teologia, a imagem e a palavra, colhidas no seu dinamismo e eficácia. À justa reticência do Decálogo, que proíbe toda a representação daquilo que «está no céu, na terra e nas águas debaixo da terra» (Êxodo 20,4) para libertar Deus de toda a forma objetal idolátrica, sucede a reviravolta do Novo Testamento. Nas Escrituras cristãs e na Tradição a pergunta de fundo sobre e representação do sagrado é rapidamente tomada em sentido favorável, não só porque a linguagem teológica é pela sua natureza simbólica e analógica – como, aliás, já tinha intuído o livro da Sabedoria, convencido de que «da beleza e magnificência das criaturas “analógôs” [por analogia] pode ascender-se ao seu Autor» (13,5) –, mas também porque o cristianismo tem no seu coração a incarnação, que vê no rosto humano de Jesus de Nazaré um “eikôn”, um ícone, uma imagem do Deus invisível, como escrevia S. Paulo aos colossenses (1,15). Nesta linha ilumina-se também a opção icónica da Igreja, que se oporá fortemente ao iconoclasmo no segundo concílio de Niceia (787), gerando e apoiando o extraordinário património artístico que terá o seu ponto de chegada também na cinematografia.

Não é secundário, depois, o facto de as suas linguagens, fílmica e religiosa, serem por sua natureza performativas. Ainda que com todas as distância e diferenças, a “sacramentalidade” do ato litúrgico tem uma analogia na eficácia da “ação” cinematográfica”, que procura “atuar” no espetador aquilo que representa. Há, com efeito, nos filmes de autêntica realidade artística e espiritual, algumas sugestões irrevogáveis que, depois de terminado o espetáculo, continuam a viver na interioridade e na própria existência do espetador.

O outro componente que entrelaça fé e filme é a palavra. Naturalmente, não entendemos aqui apenas o apoio que o diálogo oferece à representação, mas a narrativa visiva. Ora, compreende-se que a Bíblia se tenha tornado um sujeito apetecível do cinema porque é, por sua natureza, «história da salvação», e, portanto, narração. É sugestivo um aforisma judaico que afirma: «Deus criou os homens porque Ele – bendito seja – ama as narrativas».

Há, assim páginas bíblicas que parecem já um sujeito cinematográfico, como no caso das 35 principais parábolas de Jesus. Outros textos apresentam-se quase como um argumento pronto para a gravação: experimente-se ler, por exemplo, a célebre narrativa do adultério de David e do assassino de Urias, presente nos capítulos 11-12 do segundo livro de Samuel.

Nesta ótica realizaram-se algumas obras-primas, como o “Evangelho segundo Mateus”, de Pier Paolo Pasolini (1964), mas também um conjunto de superproduções de grande fôlego financeiro e técnico, mas de modesta qualidade religiosa. Pensamos em “A maior história de todos os tempos” (George Stevens, 1965), em “O pescador da Galileia” (Frank Borzage, 1959), ou em “O Rei dos reis” (Cecil B. DeMille, 1927), retomado por Nicholas Ray (1961), que teve também o mérito de ter dirigido um filme mais significativo que se tornou um “clássico” da cinematografia bíblica, “Os dez mandamentos” (1956).

Não se olhava a despesas e a efeitos, mas no fim obtinha-se uma iconografia enfática e só exteriormente religiosa, que em alguns casos se destinou a aproximar-se do sadismo, como em “A paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson (90 minutos de torturas em 126 de filme!). Nem se devem excluir as não raras provocações blasfemas que atingiam a sua capacidade de escândalo no uso impróprio do texto sagrado (“A última tentação de Cristo”, de Martin Scorsese, de 1988, na verdade menos negativo do que aparenta, tornou-se um exemplo paradigmático).

Também para o cinema pode-se repropor a antiga querela que tem atormentado críticos e teólogos quando à definição de arte sacra ou de arte religiosa (que não são necessariamente sinónimos). Na realidade, seria necessário superar as classificações excessivamente rígidas, porque um filme de explícito sujeito religioso pode resultar espiritualmente insignificante, e um filme de tema e perfil profano pode ser de altíssima marca religiosa.

Outras opiniões de G. Ravasi

Quando referiu, em contexto de valoração da arquitetura de edifícios destinados às expressões comunitárias da fé, como a igreja de Santa Maria, G. Ravasi, falando do conceito moderno de “Estado a-confessional” (que não significa anti-confessional como pretendem alguns), falava do conceito de laicidade (dever de agir em consciência, garantir a liberdade de anunciar e a liberdade de organização interna e externa). Acrescentava a necessidade de uma “ética civil” (presença da tolerância, diferente de aprovação ou aceitação, e necessidade  de leis justas – não necessariamente maioritárias) e da fidelidade dos crentes à moral cristã, que inclui o esforço de eliminar as injustiças. E salientava a necessidade da presença das obras de arte de inspiração cristã na criação intelectual e artística da sociedade humana, como forma de afirmação dos valores humanos nos espaços e nas estruturas sociais, na intervenção social através e na criação artística, nas suas múltiplas expressões (arquitectura, artes plásticas, música, literatura, e também no cinema) propondo linhas de reflexão e de transformação criativa da sociedade.

É também neste domínio que desde o início, a Voz Portucalense, enquanto semanário de inspiração cristã, sempre dedicou às obras fílmicas mais relevantes uma atenção especial. Lembramos que, desde a sua fundação, se publicava cada semana uma crítica de obras cinematográficas, que se foi mantendo, por certo com interrupções, desde os textos iniciais de Fernando Condesso, A. Roma Torres, André Oliveira e Sousa e do atual diretor, passando em anos mais recentes por oportunas e atualizadas reflexões de Arlindo Magalhães e agora de Alexandre Freire Duarte.

Lembrança de filmes de autores portugueses

Gianfranco Ravasi lembra alguns filmes de inspiração bíblica, com a pertinente admoestação de que um filme de assunto religioso pode resultar espiritualmente insignificante e um filme de assunto profano pode tornar-se fonte de valores humanos essenciais, incluindo a dimensão da vivência religiosa e da fé. Os autores portugueses de obras fílmicas não se têm mostrado especialmente vocacionado para a temática religiosa. Há no entanto obras que merecem uma atenção sob este ponto de vista.

Teremos de lembrar Manoel de Oliveira. Uma das obras que relançou o seu trabalho de cineasta foi “O Acto da Primavera” (1963), que regista a representação popular de um rico texto tradicional da aldeia de Curalha, no concelho de Chaves, narrando e meditando a paixão de Cristo, com uma extraordinária compreensão popular do acontecimento e do seu sentido. Oliveira voltou a uma temática próxima do religioso, através da apresentação do texto de José Régio, “Benilde ou a virgem mãe” (1975), em que a temática da concepção virginal faz revolver os relacionamentos afetivos e humanos de uma sociedade.

Lembrou depois Oliveira a um texto de Paul Claudel, não diretamente religioso, mas de reflexões longas e profundas sobre o sentido da identidade pessoal, da vida e da história humana, com “Le soulier de Satin” (O sapato de cetim), 1985, obra de uma extensão de sete horas, planos fixos e linguagem profunda que dificultam a sua visão e compreensão.

Mas a grande obra de Oliveira, inspirada no entendimento religioso e de intervenção da dimensão cristã da sociedade, é “Palavra e Utopia” (ano 2000) sobre a vida e obra do Padre António Vieira, certamente uma das obras maiores da nossa criação cinematográfica. A vida do P. Vieira constitui motivo de múltiplas aproximações aos temas bíblicos, mas também à ação inquisitorial e à presença e ação política, conduzida por ideais, que mereceram acabar por ser reconhecidos pelo próprio Papa.

Se continuamos a procurar títulos de inspiração religiosa no cinema português teríamos que encontrar João César Monteiro (com os filmes “Comédia de Deus” (1995) e “Bodas de Deus” (1999), em que o nome Deus nasce da personagem que o põe em relação dramática com o mundo.

Um dos campos em que o cinema aborda mais criativamente a vivência religiosa é aquele que nos apresenta a vida de figuras notáveis de santos, da história e da cultura. O Centro de Estudos de História Religiosa tem vindo a apresentar algumas dessas obras, como motivo de reflexão histórica e cultural, em espaços de paróquias ou centros paroquiais. Figuras como Madre Teresa, São Francisco de Assis, São João Bosco ou Hildegarda de Bingen são inspiradoras para narrativas fílmicas, como motivo de divulgação das grandes figuras da Igreja.

Importa também recordar obras mestras baseadas no Evangelho ou na evangelização, que as televisões nos apresentam por altura da Semana Santa, algumas das quais são dignas do maior reconhecimento. Cito as obras de um dos grandes cineastas italianos de tempos recentes, Roberto Rossellini (1906-1977), como “Os Atos dos Apóstolos” (1969), obra de grande rigor histórico elaborada para a televisão, e “O Messias” (1975), uma das suas últimas obras, um olhar pensado e pessoal sobre a vida de Cristo, bem como o que dedicou a Santo Agostinho (“Agostino d’Ippona”, 1972).

Na obra de Roberto Rossellini, como na de Oliveira, como na de muitos cineastas profanos, cumpre-se o que afirma Ravasi: “uma obra de tema e perfil profano pode ser de altíssima marca religiosa”.