Tentando sossegar com o Livro do Desassossego

Por M. Correia Fernandes

Escrevo na tarde deste dia de passagem entre um fim de semana de outono chuvoso e um outono que hoje se anuncia soalheiro e que precederá outro outono chuvoso. Tenho vindo a olhar cada dia as águas do Douro. Nas manhãs destes dias, em tempos idos e não longínquos, nas horas fugidias em que assomava à janela, olhando a ponte Luiz I e o grandioso mosteiro da serra do Pilar, via o rio sulcado por barcos, uns maiores outros mais pequenos, que animavam as manhãs e faziam esperar as tardes, como expressão de um viver humanizado, na busca da fruição do espaço, do tempo e do conhecimento vindo da arquitetura, da história e da tradição. Hoje olhei o Douro de manhã, olho o Douro à tarde, e vejo apenas as águas claras e tranquilas, que já vi agitadas e barrentas, e não vislumbro o movimento de qualquer barco de turistas ou de labores construtivos, a não ser ocasionalmente as embarcações de desporto náutico que dispõem agora de espaço desconfinado elivre.

Sou levado a pensar como se transforma o mundo e a cidade. Como o que era  gozo e satisfação pessoal, a que agora  chamam frequentemente prazer, se tornou desconcerto e desalento. Até as gaivotas se pousam aninhadas no chão do terreiro da Sé, de olho vigilante e atento, sem que ninguém as venha incomodar. As visitas de fruição das belezas artísticas da catedral  e das tradições históricas das gentes que construíam arduamente através dos séculos um edifício imponente, que guardam memórias da Senhora de Vandoma e de Nicolau Nasoni, que acolhiam as sonoridades organísticas de antanho, em que se cantaram tantos Te Deum e Requiem, das gloriosas celebrações solenes, das procissões do Corpo de Deus, e onde milhares de crianças se  reuniram gárrulas e festivas no jubileu de 2010, onde um país e uma diocese inteira choraram silenciosamente o falecimento e a coroação de Bispos emblemáticos que marcaram os ideais mais nobres de um país inteiro – eis que tudo agora é deserto.

Todo este universo de sensações me ocorre ao rever uma passagem do Livro do Desassossego, numa edição publicada em janeiro de 1982, com prefácio de Jacinto do Prado Coelho, em que afirma, citando Jorge de Sena, que “alguns serão da mais bela e mais penetrante prosa da língua portuguesa”.

De repente, ali encontro esta meditação:

“Damos comummente à nossas ideias do desconhecido a cor das nossas noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um sono por fora: se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade construímos as crenças e as esperanças e vivemos das côdeas a que chamamos bolos como as crianças pobres que brincam a ser felizes.

Mas assim é toda a vida: assim pelo menos é aquele sistema de vida particular a que em geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornamos outro. Manufacturamos a realidade. A matéria prima continua sendo a mesma, mas a forma que a arte lhe deu afasta-a efectivamente  de continuar sendo a mesma. (…)

Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou música, tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no café, distraidamente. Não sei onde conduzir os pensamentos, ou onde preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sore quê. Não tenho vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas, realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas para dar um trabalho à minha desatenção”. (LD, ed. Ática, 1982, p. 39-40).

Alto! De repente vou à janela, olho o Douro iluminado pela luz do poente que se aproxima, e vejo um barco pequeno, com poucos turistas visíveis, que sulca vivamente o rio. A luz é resplandecente e serena. As casas da outra margem refletem-se de forma decisiva e intensa.

Afinal, no meio de uma pandemia que nos tira o sentido do relacionamento, da presença, o sentido de sermos plenamente pessoas de rostos visíveis e expressivos, desmascarados, efusivos e fraternos, surge uma palavra da natureza e da cultura que nos anuncia um rumo novo!