Redescobrir uma proposta de Bento XVI

Por M. Correia Fernandes

O carácter providencial dos ensinamentos e das atitudes do Papa Francisco, evocadas neste local pelo  Cónego e professor de Teologia Moral Jorge Cunha que queremos subscrever e realçar, sobretudo no sentido da apreciação à luz da Teologia Moral do reconhecimento e da possibilidade de as leis civis considerarem o relacionamento das pessoas homossexuais terem direitos reconhecidos civilmente, distinguindo esse reconhecimento do valor moral de tais situações. De forma mais alargada, salienta o autor o caráter providencial de muitos dos ensinamentos do Papa Francisco e sobretudo a sua adequação aos universos sociais e culturais de hoje. Temos muitas vezes salientado esta qualidade própria de um Papa que procura interpretar as realidades do mundo à luz do entendimento da teologia cristã, propondo encontrar respostas para a revitalização civilizacional dos universos e estruturas do mundo de hoje. Vem nessa linha a nova dimensão da transformação ecológica e a “novidade” da última encíclica ao propor conceitos como “o amor político” e uma cultura do “diálogo e amizade social”. Este sentido da importância “providencial” dos ensinamentos e das propostas de Francisco têm mais relevância quando somos confrontados com movimentos organizados para denegria e desvirtuar o ensinamento e ação do papa Francisco.

Este foi motivo de um regresso ao ensinamento do Papa emérito Bento XVI (de quem importa lembrar a presença na cidade do Porto em maio de 2010), na sua primeira e definidora  encíclica “Deus é Amor”, onde essa doutrina do “amor político” é já aflorada, a partir de uma visão de teologia fundamental com que Bento XVI iniciou o seu pontificado, propondo a dimensão essencial do amor de Deus como princípio do todo o entendimento cristão e humano.

Nesse encíclica, Bento XVI, analisando os diversos conceitos do Amor (divino e humano, físico, psicológico, ético e moral), após estabelecer a distinção entre o “eros”, o amor profano, “amor ascendente, ambicioso e possessivo”, e o  “ágape”, “o amor descendente, oblativo”, amor divino que é essência pessoal de Deus, afirma em dado momento, que o sentido pleno do Amor se deve inserir também na dimensão social, política e relacional entre pessoas, estruturas e instituições políticas e governamentais.

Recordando o sentido e papel dos documentos da Doutrina Social da Igreja, que cita e enumera, propõe os seguintes princípios como construtores da sociedade e do relacionamento humano (n. 28 e seg.):

1)A justa ordem da sociedade e do Estado é dever central da política. 2) A evangélica autonomia das realidades temporais determina que o Estado não pode impor a religião, mas deve garantir a liberdade da mesma e a paz entre os aderentes das diversas religiões; 3) O Estado deve respeitar a fé comunitária das religiões, nas suas esferas distintas, mas sempre em recíproca relação. 4) A justiça é o objetivo e, consequentemente, também a medida intrínseca de toda a política, considerada não como uma simples técnica para a definição dos ordenamentos públicos, mas tendo como objetivo da sua natureza a dimensão ética. 5) A política e a fé tocam-se na busca da justiça, na procura e instauração dos valores éticos: a fé  “serve de força purificadora para a própria razão, liberta-a de suas cegueiras e, consequentemente, ajuda-a a ser mais ela mesma, realizando melhor a sua missão e vendo mais claramente o que lhe é próprio.

Acentua depois Bento XVI: “É aqui que se coloca a doutrina social católica: esta não pretende conferir à Igreja poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente “contribuir para a purificação da razão e prestar a própria ajuda para fazer com que aquilo que é justo possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também realizado”.

Eis como, salientando que “a doutrina social da Igreja discorre a partir da razão e do direito natural”, do que “é conforme à natureza de todo o ser humano”, procura realizar o sentido pleno do amor humano, da caridade, “ágape”, e se institui como alicerce de toda a justiça da condição humana.

É a partir daqui que Bento XVI fundamenta as grandes linhas de realização prática: a ação dos meios de comunicação social, a ação e colaboração entre as estruturas sociais da Igreja e do Estado, o perfil específico da atividades caritativa da Igreja e dos seus responsáveis.

Nos dias que correm, estas propostas nascidas em 2005 encontrando eco no ensinamento do papa Francisco, continuam a ser luz para um mundo em que as questões políticas sobrepõem os interesses do poder às essenciais dimensões da promoção do bem comum.