O Cinema visto pela Teologia (18): o filme “Tenet”​​

Por Alexandre Freire Duarte

(* USA, 2020; dirigido por Christopher Nolan; com John David Washington, Robert Pattinson, Kenneth Branagh e Elizabeth Debicki)

Confuso, violento, excitante. Eis “Tenet”. Eis, também, Christopher Nolan, não no seu melhor, mas quase, sobretudo no que diz respeito ao nos desorientar e deixar indecisos quanto ao que vimos, e, assim, a estimular-nos a debater este filme e a vê-lo mais do que uma vez.

Esta obra é um thriller cerebral de espionagem misturado com laivos de ficção-científica. A ação e o ritmo são intensos; os cenários exóticos; os efeitos especiais impressivos; enfim, a história obriga-nos a participar na mesma pela nossa reflexão. Porém, os diálogos são ofuscados e ofuscantes; a hábil, mas às vezes petulante, manipulação ilusionista das perspetivas narrativas – pensada para mostrar a relatividade temporal – torna-se exagerada e exasperante; e, com a exceção da atuação da atriz principal, os desempenhos tendem a ser insípidos e não provocam ecos emocionais.

Também devo admitir que os “heróis” e “heroínas” deste filme se movem por valores admiráveis: a coragem; a compaixão; a demanda da justiça; a colaboração; o auto-sacrifício; etc. A caracterização do “vilão” como uma cristalização do egoísmo também acerta na mouche. Enfim, também é de enaltecer a chamada de atenção para a importância do que pode vir a ser o nosso futuro em função da manipulação no passado. Não, como acontece nesta obra, por lutas contra alterações cronológicas, mas, como devemos fazer nos nossos dias, pelo não aquiescermos a narrações enganosas e totalitárias da história, que condicionem as mentes de hoje para que, amanhã, ajam de dada forma irrefletidamente condicionada.

Posto isto, “Tenet” é apenas um filme escapista com pretensões grandiloquentes e uma mensagem insípida. Merecedora de atenção, sim, mas, desde uma leitura cristã, amputada de horizontes mais amplos e bem mais reais. De facto, a mesma redunda numa mistura new-ageana e neo-gnóstica de tudo um pouco, que reduz o maravilhoso e o digno de empenho a um enquadramento meramente imanente, num louvor ao materialismo mais crasso em que, resumidos à nossa engenhosidade, somos o único ator principal da nossa própria vida. Isto, sabemos bem, é um erro. Faremos mais pelos demais e pela Terra, no sempre precioso tempo em que nesta vivermos, quanto mais crermos no Deus-Amor que é o Ator focal dessa nossa vida. Mais: e quanto mais vivermos no Reino ao trazê-lo, inspirados pela sempre vivificante graça, para a Terra e aqueles de quem nos fizermos próximos.

Vivermos esse Reino é inseparável da mais fundamental “viagem no tempo”. Não a promovida por um qualquer dispositivo, mas a da intemporal ação amorosa, congregadora e diferenciadora, de Jesus na “Grande Ceia”. Aquela em que Ele reuniu em Si, e ainda reúne em cada Eucaristia, toda a humanidade de todos os tempos num ponto de máximo amor centrífugo. Um ponto – o Seu coração – que vence(u) o que faz com que se caia na tentação daquele aduzido imanentismo: a morte. Aquela realidade que, para tantas pessoas desatentas, parece negar a eternidade inscrita e escrita no nosso ser.

(* USA, 2020; dirigido por Christopher Nolan; com John David Washington, Robert Pattinson, Kenneth Branagh e Elizabeth Debicki)