O Porto e o culto a S. Roque

Por João Alves Dias

Quando a pandemia se alonga, lembrei-me duma placa que, tempos atrás, encontrei em Vila do Conde. Dizia: “A capela de S. Roque foi construída na sequência da peste de 1580 que atingiu Vila do Conde matando um quarto da população”.

O Porto, que também sofreu essa epidemia, construiu, por essa altura, uma capela em honra do santo “advogado contra a peste”, mesmo ao lado da Sé. Diz-se que a capela foi mudada para o Largo do Souto, em 1776, em consequência do terramoto em 1755. Há, porém, quem afirme que a capela, no largo que “pelo lado nascente, de forma circular, se encostava perfeitamente aos rochedos dos Pelames”, foi inaugurada em 1741 e reconstruída em 1776 devido aos danos que sofreu com o terramoto. Certo é que, em 1876, foi demolida para se abrir a Rua Mouzinho da Silveira. Desapareceu. Porém, balaústres da sua escadaria ainda podem ser vistos a coroar, na rua dos Pelames, a parte superior do fontenário próximo. E permanecem vestígios da “forma circular” do Largo do Souto.

Houve uma outra capela no Morro do Olival de que faz memória a antiga “Viela de S. Roque” – atual rua da Vitória. Num nicho embutido entre os números 411 e 413 dessa rua, conserva-se a sua imagem e, em 16 de agosto – o dia da sua festa litúrgica-, o povo ainda festeja o “S. Roque da Victória”. Lisboa celebra-o no primeiro domingo de outubro.

É, pois, muito antigo o culto de S. Roque no Porto, mas, no centro, não há uma igreja como em Lisboa e muito menos uma paróquia como em Paris. Em contraponto, numa das saídas da cidade, outrora arrabalde, existe uma pequena capela que dá o nome a uma das mais longas ruas do Porto: S. Roque da Lameira. Porquê esta capela tão longe do centro histórico? Haveria aí uma gafaria? – perguntou-me, certo dia, D. António Ferreira Gomes.

Eis o que nos diz a história. No terreno da atual capela, existiu uma outra, dedicada à Senhora da Ajuda, onde se venerava uma pequena imagem de S. Roque. Em 1700, o ermitão pegou nessa imagem e percorreu o Brasil a pedir esmolas para a construção duma igreja em honra do Santo. Estávamos no auge do «ciclo do ouro». Foi tal o seu sucesso que, logo em 1737, era inaugurado o novo templo, no qual ainda se conserva, na sacristia, o retábulo da capela primitiva e se mantém a imagem de Nossa Senhora da Ajuda.

E por quê neste local? Onde hoje está o decrépito matadouro municipal, havia uma lagoa que recolhia as águas de Contumil para regar os campos de Bonjóia. A água que escorria dessa presa rudimentar encharcava a estrada que seguia para Trás-os-Montes. Esta a origem do nome “lameira”. Ainda existem as ruas de Lameira de Baixo e Lameira de Cima que dá acesso ao Estádio do Dragão. Este local, lamacento e pantanoso, era propício à propagação de doenças e pestes. Por isso, no alto da colina, lá estava de atalaia S. Roque para proteger os transeuntes. Por essa razão, um ilustre filho de Campanhã, no século passado, afirmava: “Não há S. Roque da Lameira; há S. Roque na Lameira”.