Certezas e incertezas

Por Ernesto Campos

“… matemáticas, produtos do pensamento humano independentes da experiência, admiravelmente adaptadas aos objetos da realidade.”

Einestein, cientista, século XX

Isto de adivinhar o futuro traduzindo-o depois em números não é de agora, servia para, nos jogos de azar (acaso), definir antecipadamente a probabilidade de ganhar. Pascal, no século XVII, recorreu ao mesmo cálculo de probabilidades para demonstrar a existência de Deus: se eu acreditar e viver de acordo com isso ganho o infinitamente bom e o que perderia pouco vale; se não acreditar, perco o infinitamente bom e o que ganho é apenas a finitude e a miséria humana. Mais vale apostar. O propósito apologético de Pascal é uma piedosa intenção, porque a fé em Deus não é um jogo nem mera aposta meio por meio.

Mas o exemplo serve para mostrar que, nisto de pandemia, vale a pena jogar às probabilidades e acreditar na eficácia das regras sanitárias.

A liberdade tem graus; baixar alguns graus de liberdade vale a pena porque é condição de sobrevivência. O que os epidemiologistas todos os dias nos mostram nas conferências de imprensa é o resultado de uma aposta semelhante, baseada em modelos matemáticos de natureza axiomática, isto é, no cálculo das probabilidades. Um axioma é um “ato decisório do espírito humano”, uma aposta: se se acreditar e obedecer às recomendações, não haverá contágio e se todos fizerem o mesmo, o vírus morre ,  deduz-se. A higiene das mãos, a máscara, o distanciamento social e nada de ajuntamentos; o axioma é: mais afastamento, menos contágio, e a pandemia desaparece.

Em antigas epidemias, o axioma, a aposta, era outro: acreditava-se que o vírus andava no ar e, então, faziam-se grandes fogueiras na rua para matar o vírus. E, na Suécia, também a aposta é outra: se toda a gente se infetar, a coisa não é grave e o universo dos suecos fica imunizado e, rapidamente, a pandemia se estingue. Os resultados não têm sido famosos e a mortalidade está acima da média europeia. Porém,  em geral na Europa, e também entre nós, a pandemia aumenta, dir-se-ia que a aposta nas medidas recomendadas não tem merecido crédito; não acreditamos que o confinamento ao espaço pessoal, o afastamento de dois metros, a máscara, etc., sejam o necessário e suficiente para esconjurar o contágio. Juntámo-nos aos magotes em comes e bebes, em espaços sem regras, protestamos por não poder ir à bola, recebe-se a polícia à pedrada, aqui e lá fora. Não se aposta.

Os apostadores são três: o Estado, eu e nós. O Estado acredita no axioma da ciência e faz o que lhe compete: define regras de comportamento, reorganiza os serviços de saúde, impõe restrições possibilitando, todavia, progressivamente, a atividade económica, procurando o equilíbrio entre a saúde e a economia. Questão é que atue com coerência, clareza e eficácia, também punitiva, se for caso disso.

Quanto a nós, a sociedade civil, é o conjunto do eu e dos múltiplos eus que acredita e aposta e assume um comportamento responsável e prudente de proteção de si e de todos. Ou não.

A vida é incerteza. Mais vale, porém, pôr entre parênteses as incertezas, ousar a aposta e viver na certeza de que, aqui, sim, como dizia o outro, a fé é que nos salva.  Quanto aos constrangimentos a que aposta nos obriga, cultivar esta outra certeza: nós aguentaremos isso.