Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo

Foto: Rui Saraiva

Por Secretariado Diocesano da Liturgia 

No dia 30 de setembro de 2020 ocorre o 1600º aniversário do «dies natalis» – o dia da morte para este mundo e verdadeiro nascimento para a eternidade – de São Jerónimo, presbítero e doutor da Igreja. O «homem das três línguas» (latim, grego e hebraico), como também era conhecido, prestou um serviço inestimável à Igreja revendo, a partir das línguas originais, as deficientes traduções latinas da Bíblia, que então circulavam, ou fazendo traduções inteiramente novas. Acusado por alguns contemporâneos de ter querido modificar o Evangelho, ele não se deteve e empreendeu o caminho para a Hebraica veritas oferecendo à Igreja uma versão que lhe permitiu compreender corretamente e em profundidade o texto bíblico: a Vulgata.

Quando São Jerónimo escrevia que a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo, estava a preconizar um estudo bíblico sério e fundamentado porque o conhecimento e compreensão das Escrituras é determinante no modo de ser e viver dos cristãos.

O Papa Francisco assinalou o início deste ano jubilar jeronimiano com a Carta Apostólica «Aperuit illis» [AI], datada em 30 de setembro de 2019, com a qual instituiu o «Domingo da Palavra de Deus» (3º Domingo do Tempo Comum, em cada ano). Na intenção do Papa, este «pretende ser, não “uma vez no ano”, mas uma vez por todo o ano» (AI, 8).

«A Sagrada Escritura é da máxima importância na celebração da Liturgia» – declarou o Concílio (SC 24). E justificou:

– «É dela que são tirados os textos que se leem e que se explicam na homilia, bem como os salmos que se cantam» (Ibid.);

– «Foi sob a sua inspiração e impulso que brotaram as preces, as orações e os hinos litúrgicos» (Ibid.);

– «é dela que as ações e os sinais recebem o seu significado».

Se retirarmos à nossa Liturgia as leituras bíblicas, os Salmos e os textos das orações, preces e hinos que se inspiram na Bíblia, o que é que fica? Mas a importância da Bíblia na Liturgia tem de se apreciar também em termos qualitativos: A liturgia é o hoje da História da Salvação. Essa História, anunciada e narrada nas Escrituras, torna-se acontecimento na celebração sacramental. A Liturgia é o perene e sempre atual «fazer-se carne» da Palavra.

O papa Francisco, na Carta Apostólica Aperuit Illis, realça a relação da Bíblia com os Sacramentos em geral e com a Eucaristia em particular (n. 8): são inseparáveis. As Escrituras iluminam o caminho que cumina no reconhecimento da ação salvífica de Cristo no encontro sacramental. Pelas Escrituras, Cristo bate à nossa porta: Ele só entrará para cear connosco se acolhermos essa voz que nos chama e nos fala (cf. Ap 3, 20; Lc 24, 13-35).

Entre todos os documentos da reforma litúrgica, o que melhor reflete esta relação entre a Palavra de Deus e a Liturgia é, sem dúvida, a Introdução ao Leccionário (Praenotanda ou Preliminares do Ordenamento das Leituras da Missa, 1981). O documento pode ler-se no início de qualquer dos 8 volumes do Leccionário da Missa em vigor. Deixamos aqui uma amostra:

«Na palavra de Deus é proclamada a aliança divina, enquanto na Eucaristia é renovada a mesma nova e eterna aliança. Naquela, a história da salvação é evocada no som das palavras; nesta, a mesma história da salvação é apresentada nos sinais sacramentais da Liturgia. Convém, por isso, ter sempre em conta que a palavra divina, lida e anunciada pela Igreja na Liturgia, leva, por assim dizer, ao sacrifício da aliança e ao banquete da graça, isto é, à Eucaristia, como seu fim próprio. Por conseguinte, a celebração da Missa, na qual se escuta a palavra e se oferece e recebe a Eucaristia, constitui um único ato de culto divino, no qual se apresenta a Deus o sacrifício de louvor e se proporciona ao homem a plenitude da redenção» (n. 10).