Outra lógica

“A noção de bem comum engloba, também, as gerações futuras”

Laudato Si, n.º 150

Esta outra lógica do Papa Francisco tem merecido pouca atenção em favor de outros pontos fortes da reflexão, da encíclica Laudato Si sobre o mundo em que vivemos e o horizonte ético do eu-aqui-e-agora. Todavia, diz-se na referida encíclica de 2015: “Quando pensamos na situação em que se deixa o Planeta às gerações futuras, entramos noutra lógica: a do dom gratuito, que recebemos e comunicamos. Se a Terra nos é dada, não podemos pensar apenas a partir de um critério utilitarista de eficiência e produtividade para lucro individual. Não estamos a falar de uma atitude opcional, mas de uma questão essencial de justiça, pois a Terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir” (n.º 159). E cita-se a carta pastoral do Conferência Episcopal Portuguesa (2003) sobre a responsabilidade solidária do bem comum: “O ambiente situa-se na lógica da receção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte”.

E vemos que este “Princípio da Responsabilidade” é preocupação igualmente de autores como Hans Johnas; segundo o seu pensamento impõem-se-nos, hoje, novos deveres e uma atitude de humildade no que respeita ao ambiente; e à falta de conhecimento postula a sabedoria do comedimento.

Na encíclica citada lê-se, por outro lado: “Que tipo de mundo queremos deixar a quem nos vai suceder, às crianças que hão de crescer? Esta pergunta não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode pôr a questão de forma fragmentária. Quando nos interrogamos acerca do mundo que queremos deixar, referimo-nos sobretudo à sua orientação geral, ao seu sentido, aos seus valores.” (n.º 160). De facto, confrontamo-nos, hoje, com teorias avassaladoras questionando o antropocentrismo otimista herdado da sobrevalorização iluminista da razão humana: as luzes da razão tudo explicariam – o ser humano e o cosmos sob o seu domínio. Nesta modernidade, a razão instrumental conduziu à formulação de “mitos” que o Papa enumera: individualismo, progresso ilimitado,  consumismo, mercado sem regras. É “uma deterioração ética e cultural que acompanha a deterioração ecológica” (n.º 162).

O desafio da justiça intergeracional não deve esquecer “as grandes motivações que tornam possível a convivência social, o sacrifício, a bondade (…); e será preciso fazer apelo aos crentes para que sejam coerentes com a sua própria fé e não a contradigam com as suas ações” (n.º 200).

Esta pandemia virulenta, que agora nos ameaça, bem pode ser o ponto de partida de uma revolução cultural que edifique outro estilo de vida e novos hábitos de convivência com o próximo e com o mundo. Com efeito, o vírus veio assustar o homem e lembrar-lhe a sua vulnerabilidade e ignorância. À gravidade da crise cultural e ecológica, junta-se agora a crise sanitária e sócio-económica.

Os projetos de transição do modo de viver já desta geração e, por maioria de razão, das futuras, passam pela conversão a uma lógica nova, não só, mas também, na educação escolar. Desde a família e o jardim de infância terá de ser dada, antes da tecnologia utilitarista, absoluta prioridade à interiorização de valores, à criação e maturação de hábitos (n.º 211),  práticas e itinerários pedagógicos de uma ética ecológica que ajude a “crescer na solidariedade, na responsabilidade e no cuidado assente na compaixão” (n.º 210). Afinal,“educar é criar bons hábitos”.