Mensagem (85): Corações

Chamou-me a atenção uma notícia dos últimos dias: na Europa, está a gerar-se a moda de organizar “festas da Covid”, nas quais se inclui um já positivo, sem se dizer quem, que transmitirá a doença a outros. A «excitação» está nessa espécie de roleta russa de se jogar com a sorte e de se ficar à espera para saber quem vão ser os próximos infetados.

Ninguém ignora os estragos que a pandemia está a causar em todo o mundo: nas mortes, no sofrimento físico e psicológico dos doentes, na angústia dos velhinhos, na dureza das condições dos confinados, na amargura dos que perderam ou vão perder o emprego, na fome dos que não têm meios de subsistência, na tristeza das nossas cidades desertas, na incerteza do que virá no futuro, enfim, no acrescentar dor a um mundo que já tinha tanta.

Por isso, é preciso ser celerado, criminoso, para contribuir, deliberadamente, para a propagação do mal. Ou, como diz o nosso povo, é preciso não ter coração.

Enquanto isto, nove jovens do Porto comprometem-se a fazer desta uma “Diocese de coração”. Não movendo luta, terçando armas, abrindo frentes de batalha contra algo ou contra alguém. Mas anunciando, propondo, fazendo ver claro e em liberdade.

A partir da revelação bíblica que vê, metaforicamente, o coração como o órgão através do qual Deus se dirige ao homem, vão apregoar a “quem tiver ouvidos para ouvir” que é no coração que se avalia o timbre da verdadeira qualidade de vida, dependente de condições exteriores, é verdade, mas muito mais dos valores «árduos» e altruístas.

Vão espalhar que o coração é a sede dos sentimentos e que estes tanto podem ser de alegria e coragem como de medo e angústia. E que é preciso erradicar estes segundos para que só os primeiros vinguem. Por isso, é preciso “ter bom coração”, pois por aí passa a vida moral que nele estabeleceu a sua morada. Que é a partir da consciência bem formada, que aí «vive», que se dá ordens à vontade. O que gera o bem ou o mal, a fidelidade ou a apostasia, o amor ou o ódio, o empenho ou o desinteresse. Enfim, Deus ou o diabo.

“Nada há de mais astuto que o coração, tantas vezes perverso”, garante Deus pelo profeta Jeremias (Jr 17, 9). Para que essa astúcia não se torne o reino do mal, os novos padres e diáconos irão proclamar que “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho” (Gal 4, 6).

E será Este a fazer desta uma “Diocese do coração”.

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