Jerusalém: um erro perigoso e desnecessário  

Por António José da Silva

Desde a criação do estado de Israel em 1948, que os Estados Unidos vêm mantendo uma ligação muito especial a este país. Independentemente do partido a que pertencem, todos os presidentes norte-americanos fazem questão de proclamar a importância dessa ligação histórica que se tornou, com a passagem do tempo, uma espécie de garantia oficial e definitiva da sua independência. Trata-se de uma ligação que se deve não só ao peso financeiro e político que a comunidade judaica sempre teve nos Estados Unidos, mas também à política anti-israelita que muitos responsáveis palestinianos foram revelando ao longo do tempo, num comportamento traduzido no apoio a movimentos radicais que recusam aceitar a independência de Israel.

Apesar disso, esta ligação histórica confrontou-se sempre com algumas linhas vermelhas que o governo de Telavive nunca se atreveu a ultrapassar, sob pena de perder o apoio incondicional que sempre recebeu de Washington, e sem o qual dificilmente poderia sobreviver. Entre essas linhas vermelhas, podemos referir a que se prende com o estatuto de Jerusalém, a cidade santa que também o é para cristãos e muçulmanos. Não obstante toda carga histórica e simbólica desta cidade, ou talvez por isso mesmo, os fundadores do novo estado de Israel nunca se atreveram a considerá-la como sua capital, embora não faltasse quem guardasse esse desejo bem no fundo do coração. E isto foi sempre assim, até ao momento em que Donald Trump chegou à Casa Branca.

O actual presidente norte-americano faz questão de marcar, repetidamente, importantes diferenças relativamente aos seus antecessores, quer no capítulo da política interna, quer no que respeita à política externa do seu país. Não surpreende, portanto, que ele tenha querido assinalar mais uma, optando por aquilo que se afigurava mais fácil e mais propício à garantia da sua aprovação pela comunidade judaica, residente ou não nos Estados Unidos. E foi assim que ele decidiu considerar Jerusalém como capital do estado de Israel. Uma decisão tão perigosa como desnecessária…

Foi uma decisão tão inesperada como polémica e perigosa, porque Trump deveria saber que os muçulmanos do Médio Oriente, e não só, reagiriam pessimamente àquilo que consideravam uma verdadeira afronta, um sentimento partilhado até pelos seus líderes mais moderados. Neste cenário, muitos acreditam que o presidente norte-americano terá quebrado os últimos laços que suportavam as já frágeis relações que o seu país mantém ainda com a maioria dos estados muçulmanos.

Foi mais um erro de Donald Trump, um erro que só não provocou reacções mais audíveis, porque foi cometido num tempo em que a Comunicação Social está virada quase, exclusivamente, para as consequências trágicas da pandemia que atingiu todo o mundo…