Cuidar da vida

Por Ernesto Campos

“…Não há missão mais grandiosa, humilde,     criativa e atual”

Card. Tolentino de Mendonça (10.6.2020)

A intervenção do cardeal D. Tolentino de Mendonça, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades deste ano, mereceu referências da comunicação social como peça de grande qualidade literária. Lido e relido, porém, o texto, encontramos, também, algo mais. Sem demasiada retórica, que a circunstância, aliás, consentiria, o que ressalta é um quadro de afirmações de conteúdo ético e de uma densidade sentencial e sapiencial que escaparam à atenção jornalística. Valerá a pena, por isso, refletir sobre algumas das palavras-chave do discurso. Elas são expressão da “navegação interior” de quem põe a alma no que diz, e revelação da “consciência última de nós mesmos

O quadro do que somos está desenhado nos conceitos éticos que, pela sua força motivadora, nos permitirão afrontar a crise, colocando-nos “no interior turbulento de uma mudança de época” e tratando “com sabedoria  nossas feridas”.

A palavra-chave primordial é que somos comunidade. Os termos latinos cum + munus “não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer”, mas “por um munus, isto é, um comum dever”. A comunidade é a raiz da civilização. Aí começa a nossa história, o dever comum de cuidar da vida como tarefa partilhada, um nós com a “configuração histórica, espiritual e ética” que lhe demos. O cuidado da vida comunitário envolve outras palavras-chave: solidariedade, que nos obriga ao comum dever de nos “empenharmos na qualificação fraterna, ultrapassando a cultura da indiferença e colocando no centro de tudo a pessoa humana, tornando concreta a justiça social. Compaixão, outra palavra-chave. “O amor a um país, ao nosso país, pede-nos que coloquemos em prática a compaixão – no seu sentido mais nobre – e que essa seja vivida como exercício efetivo da fraternidade. Compaixão e fraternidade (…) são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos, não só em relação à história passada de Portugal, mas também àquela hodierna, que o nosso presente escreve. E é nesse chão que precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes.”. Uma ética do cuidado. Raízes é a palavra-chave pensada pelo orador para este discurso intitulado “O que é amar um país”. Amar um país na fixidez de “uma imagem de glória, e desejando que esta não se modifique jamais. Ou (…) amar um país como algo que, precisamente por estar colocado dentro da história, sujeito aos seus solavancos, está exposto a tantos riscos.”. Amar pela força ou pela fragilidade. Diz, citando Simone Weil: “quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor, a chama deste é muito mais pura.”.

Amar, reconhecendo a fragilidade, é assumir, por um lado, os conceitos éticos que as palavras-chave do discurso encerram; e, por outro lado, trabalhar para realizar o programa, que o discurso também explicita, em três linhas de ação: reabilitar o pacto comunitário, uma ética do cuidado para que ninguém fique sozinho; fortalecer o pacto intergeracional, honrando os velhos e ajudando os jovens–adultos que buscam a sua autonomia; implementar um novo pacto ambiental, uma ética da criação “que tenha expressão jurídica”, mas, também, se traduza nos estilos de vida quotidiana.

Isso é a amar um país, o nosso país no modo de ser em comum  E bem pode ser, então, aqui e agora, o desígnio nacional.