Sobre Camões, as Comunidades e o Hino

Por M. Correia Fernandes

 

Tenho sempre Camões ao pé de mim, numa cadeira no quarto.

Não li nunca da forma apaixonada como li Camões.

Maria Velho da Costa, Público, 13/1/2013

 

Uma das maiores barbaridades comuns ditas por gente entendida é aquela em que se afirma não gostar de Camões, porque dava muito trabalho a dividir as orações. Maria Velho da Costa afirma o contrário: que conseguia bem dividir as orações mesmo quando o predicado estava longe. Também há quem diga que para apreciar bem um automóvel é essencial perceber como funciona o motor, ou agora o computador de bordo.

Vamos então celebrar este ano, de forma diferente que ainda não se sabe bem qual vai ser, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Esta associação, em vigor desde 1978, parece virtuosa, superando em bom senso a designação anterior de “Dia da Raça” (a pergunta sem resposta parece óbvia: o que é a raça?).

A ligação a Camões parece também ser legítima e fundamentada: de facto, seria difícil encontrar uma figura nacional que melhor possa simbolizar a nossa identidade como povo.

Recordar Camões é sobretudo recordar o homem e a obra. Recordo aquilo que escrevi, em 1981, no capítulo “Luís de Camões, clássico hispano-português” (inserto no volume Pós-Leituras, Porto, Ad. ASA, 1999):

Os possíveis centenários das datas-chave da vida e obra de Luís de Camões não são mais do que três, de tão poucas coisas que sabemos da sua vida: o nascimento, a morte e a publicação de Os Lusíadas. E esta é única certa, porque registada no frontispício da edição de 1572 (ainda assim, há duas edições ligeiramente diferentes com a mesma data). A da morte costuma situar-se em 1580 (mas também é indicado o ano anterior), tendo o seu corpo sido conduzido à porta do cemitério de Santa Ana, onde foi sepultado “da banda de fora chãmente”, como diz Diogo do Couto, e onde mais tarde, como afirma Faria e Sousa, Gonçalo Coutinho lhe mandou colocar “una losa en mármol, com letrero (bien quisiera yo poderle llamar Epitafio) q dize asi: AQUI YAZ LVYZ DECAMÕES, PRINCIPE DOS POETAS DO SEU TEMPO, VIVEO POBRE E MISERAVELMENTE, E ASSI MORREO. ANNO DE M.D.LXXIX”. O mesmo Faria e Sousa lhe chama “principe de los poetas de España” (na edição comentário que elaborou dos Lusíadas, 1639) e “principe de los poetas heroicos, y lyricos de España” (na edição da Rimas Varias de Luis de Camoens”, 1685.

Assim, a questão do centenário de 1580 surgiu pela comemoração muito valorizada na data de 1880, fazendo esquecer a de 1572. Também a data suposta do seu nascimento foi recordada por Almeida Garrett em 1825 (publicação do seu poema Camões, tido como expressão da tendência romântica de valorização das figuras nacionais) data em que na mesma linha foi também divulgada uma obra de referência da música portuguesa: o Requiem à memória de Luís de Camões, de João Domingos Bontempo, escrita em Paris para celebrar a edição ilustrada de Os Lusíadas, do Morgado de Mateus, ali publicada em 1817.

Lembre-se também, sem nenhuma espécie de nacionalismo balofo, que o poema de Camões constitui também um louvor ao espírito hispânico, o poema da expansão em direção aos novos mundos, com a eloquente exaltação: “Eis aqui se descobre a nobre Espanha /como cabeça ali da Europa toda”. E basta ler cuidadosamente a descrição da “soberba Europa”, com a sua situação e geografia, seus reinos, seus limites naturais e seus povos, manifestando um profundo conhecimento geográfico e cosmográfico desta parte do mundo, para percebermos que Os Lusíadas são também um poema europeu, que procura analisar o papel histórico e cultural desta parte do universo. Todo o conjunto descritivo manifesta que Portugal e Espanha, na concepção do poeta, formam um unidade global que imagina como cabeça da Europa, construindo uma espécie de “parâmetro de cefalização”, que, como escrevi, “daria à Europa todo o sentido da unidade do conjunto, como cérebro e centro de ação”, como um modelo de equilíbrio civilizacional. O mundo de então estava centralizado nas movimentações peninsulares. Esta é também a visão do analista espanhol Ramiro de Maeztu: “En Os Lusíadas se encuentra la expresión conjunta del genio hispánico en su momento de esplendor. Allí está su expansión mundial y su religiosidad característica: la divinización de la virtud humana. Donde acaban los Lusíadas empieza el Quijote”.

Digamos então que Os Lusíadas são o fruto sazonado e aperfeiçoado dos crisóis da sabedoria clássica, da poética, da moral, da estética, da arte, da mitologia, dos conceitos que o espírito do Renascimento tanto prezava. Todo este universo cultural é transportado no seio de uma “poderosa arquitectura significante”. Esta expressão é de Jorge de Sena: após uma análise pormenorizada de múltiplas equivalências, coincidências e verificações numéricas, formula a seguinte questão: “Terá Camões feito um poema épico ou um imenso tratado de moral, A Study of History à sua maneira?” (Jorge de Sena, A Estrutura de Os Lusíadas, 1980).

Bom é, pois, recordarmos as palavras de Jorge de Sena no seu discurso na Guarda, em 10 de Junho de 1977, que atribui ao poema camoniano uma dimensão de uma amplitude que a simplificação do ensinamento oficial pode obnubilar:

“Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta… Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal…

Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas… Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões é a vida pelo mundo em pedaços repartida.”

Desculpem a extensa citação. Mas deixem-me dizer: uma das afirmações que se ouvem

da boca de pseudo-entendidos , dizendo que a última palavra do poema é “inveja”, revela uma falta de entendimento: é afirmação de grandeza humana, de personalidade forte, de construtivo projeto: “sem à dita da Aquiles ter inveja”: tu serás digno de toda a grandeza.

Assim esperamos da dinâmica da ação patriótica. Onde está ela?

Vejo que faltou o hino. Ainda dele falaremos.