Aproveitar para alimentar, o desafio Re-food

Por Ângelo Soares
Vice-coordenador do núcleo Refood de Maia Centro

Re-Food é um Movimento comunitário independente, totalmente voluntário, conduzido por cidadãos e integrado numa IPSS. Nasceu em Lisboa em 2011 pela iniciativa de Hunter Halder, cidadão americano há muito radicado em Portugal, e integra atualmente 60 núcleos locais em todo o território continental. O seu lema é “Aproveitar para alimentar” e dele decorrem os três pilares em que assenta a sua atuação.

O primeiro pilar é o combate ao desperdício, concretizado na recuperação de comida confecionada e em boas condições proveniente dos excedentes de estabelecimentos de restauração (restaurantes, cantinas, cafés, padarias e confeitarias), bem como de alimentos frescos ou embalados – normalmente em final da validade – fornecidos por estabelecimentos de distribuição (desde as grandes cadeias às pequenas mercearias e frutarias de bairro). Esta comida, que doutro modo seria um potencial desperdício, é encaminhada para alimentar pessoas necessitadas, identificadas na comunidade local em que cada núcleo Re-food se insere, que diariamente recolhem as suas refeições nos centros de operação dos vários núcleos; este “dar de comer a quem tem fome” é o segundo pilar de atuação. A ligação entre estes dois objetivos constitui o terceiro pilar: a inclusão das pessoas e de todos os possíveis parceiros neste esforço contínuo. O Re-food não pede nem angaria nada, antes convida a que cada elemento da comunidade – indivíduo ou instituição – se envolva da forma que melhor entender: voluntários que recolhem, armazenam, preparam e distribuem as refeições, empresas que oferecem bens ou serviços, autarquias que apoiam e com quem articulamos trabalho, outras instituições de solidariedade com quem partilhamos necessidades e recursos.

Esta cadeia solidária envolvia, antes do início da pandemia, 7000 voluntários que em todo o país recolhiam cerca de 75 toneladas de alimentos por mês e alimentavam diariamente 6500 beneficiários.

É evidente que março deste ano representou uma revolução para o trabalho Re-food. Os restaurantes e muitos outros estabelecimentos parceiros fecharam, os voluntários e beneficiários ficaram confinados. Os poucos estabelecimentos que se mantiveram abertos tiveram constrangimentos de funcionamento e as restrições de circulação limitaram fortemente as possibilidades de recolha e distribuição.

As necessidades, porém, não acabaram, antes se agudizaram, e o número de solicitações começou a subir quase de imediato, devido aos que ficaram sem trabalho ou tiveram fortes diminuições de rendimentos. Felizmente não falhou o terceiro pilar Re-food: as pessoas e a comunidade! Através de doações e de parcerias com outros apoios sociais, foi possível fornecer alguns cabazes de bens alimentares. Voluntários mobilizaram-se para confecionar refeições. Os centros de operações reorganizaram-se para garantir o cumprimento das novas e mais exigentes regras de higiene e segurança. Empresas ofereceram equipamentos de proteção. Os voluntários que pertencem a grupos de risco vão tomando conta das tarefas administrativas e organizativas que podem ser feitas à distância. Boas pessoas das comunidades foram oferecendo os seus préstimos: “Já que tenho de estar por casa, em que vos posso ser útil?” foi uma pergunta frequente nas nossas redes sociais.

Agora que os estabelecimentos de restauração e distribuição vão reabrindo e que muitos dos voluntários já se podem desconfinar, não vamos voltar à realidade anterior: vamos retomá-la no que for sendo possível, ao mesmo tempo que enriquecemos a nossa atuação com as novas ferramentas e parcerias que fomos descobrindo e pondo em prática nos últimos meses. As novas necessidades já manifestadas e as que provavelmente ainda surgirão assim o exigem. Parafraseando Churchill: “Uma boa crise não se pode deitar ao lixo”!