Sobre a Jornada da Comunicação Social: encontrar o dinamismo da verdade

Por M. Correia Fernandes

Numa tradição que vem já na sequência do Concílio Vaticano II, por ocasião da Solenidade da Ascensão do Senhor, a Igreja lembra a importância da comunicação social nos diversos contextos da convivência humana. Este ano lembrou-se já o 54.º Dia Mundial das Comunicações Sociais. Todos os anos a Mensagem do Papa é divulgada com a data de 24 de janeiro, dia litúrgico de São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e escritores. Para os cristãos, em primeiro lugar, mas a sua inspiração de busca da verdade e da presença fraterna entre todos deve inspirar igualmente os jornalistas cuja profissão é aproximar as pessoas e as sociedades.

Na sequência do texto publicado na Voz Portucalense de 20 de maio de 2020, salientamos ainda algumas das suas dimensões.

A mensagem deste ano, escrita e divulgada antes de emergência do surto da pandemia do Covid-19, ao estilo do Papa Francisco que parte do concreto da vida para a proposta de princípios de convicção e de ação, acentua duas dimensões essenciais da convivência humana: a memória e a historicidade. Baseia-se numa frase do Êxodo (10,2): “para que possas contar e fixar na memória: a vida faz-se história”.

Propõe depois uma reflexão sobre a importância da narrativa como forma de ligação e comunhão, propondo a vida da sociedade como um universo de formas assimiladas que “enriquecem as tramas dos seus dias”.

Constatando, porém, os tipos de comunicação que enxameiam a sociedade de hoje, lamenta a profusão das “histórias que narcotizam” pessoas e sociedades, utilizadas em proveito de múltiplos interesses alheios ao universo essencial da pessoa e da convivência humana. Apresenta a Bíblia como um universo de histórias, tantas vezes também tristes e escabrosas, mas desembocando, por meio da ação profética, no Evangelho, que não é apenas um património do passado, mas uma história humana com dimensão salvífica para o homem e para o universo.

Recorda as histórias das grandes figuras da Igreja, como Santo Agostinho, Santo Inácio, Santa Teresa e autores como Manzoni ou Dostoievski, que analisam “o encontro da liberdade de Deus e a do homem”, para “fazer memória daquilo que somos aos olhos de Deus”. Citando Bento XVI, recorda que “A mensagem cristã não era só «informativa», mas «performativa». Significa isto que o Evangelho não é apenas uma comunicação de realidades que se podem saber, mas uma comunicação que gera factos e muda a vida”.

É neste quadro de reflexões que insere uma prece a Maria, a quem pede: “Ajudai-nos e construir histórias de paz, histórias de futuro”.

No contexto atual da pandemia, este universo de mensagem adquire uma dimensão renovada: quantas informações falsas e falseadoras nos atingem nestes dias! Os novos interesses, as novas violências, a exploração dos medos paralisadores. No dizer da Mensagem, de forma tão aperfeiçoada: “Precisamos de paciência e discernimento para descobrirmos histórias que nos ajudem a não perder o fio, no meio das inúmeras lacerações de hoje; histórias que tragam à luz a verdade daquilo que somos, mesmo na heroicidade oculta do dia a dia”.

Nos dias de hoje, a heroicidade oculta é já patente, mas surge embrulhada em tanta mentira que nos causa mais desalento que ânimo. Mas necessitamos de “reconhecer, no meio do mal, também o dinamismo do bem e dar-lhe espaço” (Mensagem, n. 5).

Releia-se pois esta Mensagem: ela é um alerta e uma proposta para o nosso tempo. Lembre-se a missão dinamizadora da comunicação social num mundo controverso como o de hoje. Busquemos a comunicação que aproxima, rejeitemos a que conflitua e divide. Que o tempo de pandemia seja tempo de descoberta e reconciliação.