A curva da vida

Por Ernesto Campos

“Ninguém é tão velho que não creia viver um ano mais”

 Cícero, escritor romano  

A curva estatística todos os dias nos dá conta da evolução da pandemia, preparando-se para o pior, mas esperando o melhor. Tal como a curva da vida, que arrasta toda a gente para a velhice, que tanto pode ser a idade do desespero, como a idade da sabedoria.

Os estudiosos do desenvolvimento humano dividem o arco da vida em segmentos, períodos, fases, estações, estádios, desde a conceção até à morte. Cada um destes estádios caracteriza-se por conter já em germe o estádio seguinte e prolonga-se nele: a infância prolonga-se na adolescência e a esta contem já, de algum modo, a juventude. Sempre em conflito entre o passado, o presente e o futuro. E verifica-se outra característica curiosa: em alguns casos não se chega a atingir o estádio seguinte esperado. Estudos feitos mostram que alguns estudantes universitários ainda não chegaram ao estádio de completo desenvolvimento intelectual esperado para o nível da universidade.

No que diz respeito à terceira idade, o declínio físico e a perda de influência social são condicionamentos incontornáveis exigindo a adaptação do idoso às novas condições da sua vida e à curva que se lhe achata cada vez mais. E quanto ao desenvolvimento do Eu que a vida vivida foi elaborando em função de fatores que vão desde a profissão, o estatuto e o papel social desempenhado até à religião, à etnia e à realização pessoal, J. H. Barros de Oliveira define o Eu como “a instância central da personalidade”.

Diríamos, então, que, mais do que a idade, é esta instância central da personalidade que define o idoso. Trata-se da evolução de um desenvolvimento desde da dependência até à autonomia e à maturidade da pessoa, envolvendo a inteligência geral, o raciocínio moral e a integração no contexto social. Erikson, por exemplo, fala das oito idades do homem, que vão de estádio em estádio, sempre em crise entre os impulsos instintivos e as exigências da sociedade, até à aceitação das limitações no estádio de total integração, na natural curva da vida. Questão é que não se tendo superado a crise do estádio anterior, se tenha ficado nele, caindo na esterilidade criativa, sem projetos, estagnando no empobrecimento pessoal.

Por outras palavras, há velhos que o são por dentro, mesmo que o não aparentem por fora; o contrário também é verdadeiro: velhos por fora, mas não por dentro. Estes têm o benefício do desejo de viver, que o ser humano é, fundamentalmente, desejo, sonho e projeto. Estes continuam homens plenamente. Os velhos não são todos iguais. Por isso é absurdo que qualquer velho encontrado na rua ou na livraria seja interpelado: “você está num grupo de risco, vá para casa”. Deixem-no caminhar na planície da vida; prudência tem ele.

Mas houve quem não se coibisse de defender que não valia a pena gastar dinheiro e tempo com os idosos: são gente improdutiva. O vírus da natureza tratará de os eliminar, reservando cuidados e recursos para quem produz ou pode vir a produzir. Em Portugal não vingou esta linha de pensamento anti humana, mais do que desumana, cuidou-se, primeiro, melhor ou pior, de salvar vidas, não se reduziu o ser humano à dimensão económica. A pandemia terá fim. A vida humana também. Mas esta, depois dos picos de crise da curva da vida, o planalto achatado transforma-se em planície e para o velho que atingiu a sabedoria, essa planície abre-se-lhe na esperança do infinito.