Editorial: Lembrando D. Manuel Vieira Pinto

Os vinte anos de escondimento que viveu na Casa Sacerdotal do Porto tornam a figura de D. Manuel Vieira Pinto menos notada pelas pessoas de hoje. Mas a sua estatura de bispo bem merece que o recordemos como um homem de Igreja dos mais válidos que a nossa terra viu nascer.

Criado à sombra tutelar da Serra do Marão, como Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes ou Agustina, ele herdou desde criança esse enraizamento na medula da vida onde medra a convicção cristã, que fez dele o pastor lúcido e corajoso que foi. Lembro-lhe de lhe ouvir contar uma história que lhe explica a vida. Numa das últimas aparições públicas, já regressado definitivamente ao Porto, alguém lhe perguntou donde lhe vinha a coragem para defender os direitos humanos em nome da fé, como o fez durante a sua vida de bispo. “Foi na minha infância, contou. Caminhava com o meu pai pelos caminhos de Aboim, todo vaidoso, com o chapéu que, naquele tempo, as crianças usavam. Quando nos cruzámos com um homem de aparência modesta, o meu pai saudou-o, descobriu-se, como era costume. Como eu ficasse quieto, foi-me dito: Tira o chapéu, rapaz, que todos merecem esse respeito! Nunca mais esqueci a lição. Foi essa a base da minha convicção sobre os direitos humanos”.

Depois de ter ordenado padre, em 1949, D. Manuel foi assistente da Acção Católica e introduziu na diocese o Movimento por um Mundo Melhor. Eleito bispo de Nampula, Moçambique, em 1967, teve uma actuação pastoral marcante, num tempo de guerra colonial, como era o que se vivia. A impugnação da guerra como meio de resolver o questão colonial e a denúncia de atrocidades nesse contexto, valeu-lhe a remoção compulsiva de África, pelas autoridades portuguesas, nas véspera do 25 de Abril de 1974. Tendo voltado a Nampula, continuou a sua vida de bispo, agora nos tempos conturbados da nova guerra pós-independência do jovem país.

Homem de acção, capaz de grande sintonia com o povo que lhe foi confiado, fez um notável trabalho de inculturação da fé segundo os valores locais, baseando-se neles para o crescimento do Evangelho. Ele que foi formado no velho universo da teologia, teve a lucidez de se abrir ao novo mundo do Concílio Vaticano II, valorizando o diálogo inter-religioso, no contexto da missão cristã, pois no norte de Moçambique predomina o islão, bem como as religiões autóctones africanas. Teve a sabedoria de dialogar com frontalidade com a novas autoridades políticas, tentadas pelo totalitarismo de esquerda, respeitando e fazendo-se respeitar.

É de toda a actualidade lembrar este homem de Igreja que acaba de partir do nosso meio. As circunstâncias em que viveu são certamente diferentes das nossas. Mas podemos aproveitar o seu exemplo de bispo para o nosso tempo em que, mais do que a oposição à Igreja, predomina uma certa irrelevância da fé. Veja-se o que se passa por estes dias. No meio da pandemia que vivemos, o papel da Igreja, como perita na vida e na morte dos seres humanos, anda fora de circulação, engolida pelo higienismo e pelo naturalismo que actuam em roda livre, sem que ninguém consiga propor o mais elementar voo de ave do Espírito.